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20.4.10

manaus - altamira


Euclides da Cunha em carta a Domício da Gama, durante visita a Manaus em 1905:

"Mal tenho tempo de escrever-te. Manaus, onde eu julgava ficar tão poucos dias e onde estacamos de improviso, a braços com os maiores empecilhos na aquisição de meios de transporte, é hoje para mim uma Capuá abrasadora, trabalhosa, que me devora energias, menos pelo excesso de felicidade que pela sobrecarga de preocupações. Imagina esta situação de parada forçada e inaturável na minha engenharia de César. Quis chegar, observar e voltar, mas cheguei e parei. Estaquei à entrada de meu misterioso deserto do Purus; e, para maior infelicidade, depois de caminhar algumas três milhas, caí na vulgaridade de uma grande cidade estritamente comercial de aviadores solertes, zangões vertiginosos e ingleses de sapatos brancos. Comercial e insuportável. O crescimento abrupto levantou-se de chofre fazendo que trouxesse, aqui, ali, salteadamente entre as roupagens civilizadoras, os restos das tangas esfiapadas dos tapuias. Cidade meio caipira, meio européia, onde o tejupar se achata ao lado de palácios e o cosmopolitismo exagerado põe ao lado do Yankee espigado... o seringueiro achamboado, a impressão que ela os incute é a de uma maloca transformada em Gand.

Imagina como atravesso estes dias agravados pela canícula de 30 graus à sombra e à noite... na constância formidável de uma estufa. Daí a moléstia, em que pese à minha organização de salamandra. Escrevo-te com febre, uma febre monótona em que o termômetro se arrasta traiçoeiramente, com uma lentidão medrosa, a 37 e 30 graus - resolvi diariamente solicitar a aliança perigosa de um médico. Do teu

Euclides"

Neste dia de leilão, faz pensar na cruzada do então ministro Roberto Mangabeira Unger por sua definição de desenvolvimento da Amazônia, última palavra do governo sobre o assunto. E em Belo Monte, claro, com sua energia dirigida às indústrias de alumínio e siderurgia, na mesma Altamira prometida de Bye, Bye, Brasil. Aço como borracha.

8.3.10

freyre e demóstenes


Em causas de alta relevância e polarização, nunca foi fácil argumentar com matizes.

Mas nesta semana de debate das cotas raciais no Supremo Tribunal Federal, uma amiga me enviou o link com a notícia da exposição anticotas feita lá pelo senador Demóstenes Torres, acompanhado do comentário: "O Gilberto Freyre serve para sustentar esse tipo de argumentação. Ele não é só isso, claro. Mas é isso também. E não é pouca coisa ter o Demóstenes Torres evocando Gilberto Freyre para dizer que o estupro foi consensual e que a miscigenação no Brasil foi bonita."

Hoje Elio Gaspari e Miriam Leitão, na Folha e no Globo, reforçam o repúdio devido ao senador.

Não há o que comentar sobre a fala de Demóstenes e seu poder de síntese sobre os malabarismos mentais feitos por parte da elite brasileira para conviver com a própria má consciência. Nem é fácil divergir da amiga em questão (é uma amiga querida, de resto).

Mas a observação dos matizes necessários neste caso me impede de desconsiderar uma diferença primordial: eu acho sim que a miscigenação brasileira foi e é uma coisa bonita. Ou pelo menos, para formular em termos que permitam um acordo, que tem sua beleza a ser defendida.

Não preciso para isso negar o estupro, o racismo persistente e o fato da escravidão permanecer por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Apenas evitar a armadilha das generalizações binárias no calor do combate. E isso não por um capricho acadêmico ou literário, mas pelo valor que tem também para a história das relações humanas no Brasil.

O povo chocolate e mel da refavela de Gilberto Gil e a japonesa loura e a nordestina moura da São Paulo do Premeditando o Breque são um fato (e têm sua própria complexidade a exigir atenção, como nos lembra Mano Brown no trecho destacado no Consciência Mulata publicado abaixo). Como o são também o sincretismo cultural e religioso e os caboclos, cafuzos, mamelucos e mulatos ("pardos", na sintomática - pela sugestão de negatividade que contém - terminologia aglutinadora adotada pelo IBGE) espalhados por nossas vastas solidões.

A criação de um imaginário capaz de saudar esses fatos e acolhê-los como parte constituinte da nossa identidade em formação não foi simplesmente uma conspiração da elite branca para ocultar o passivo da escravidão e evitar o surgimento de uma consciência negra no país, mas também e principalmente uma construção histórica notável, em um momento em que o conceito de raças e o elogio da pureza racial ainda circulavam com desenvoltura no universo intelectual do ocidente. Não foi pouco nem gratuito ter sabido responder a isso com o ideal da mistura como fundamento do nosso próprio valor e singularidade.

Não foi e não é, em um momento em que o convívio com o diferente está longe de ser um problema resolvido naquele mesmo universo. Quando um chamado como "hoje tem festa no gueto / pode vir, pode chegar / misturando o mundo inteiro / vamos ver no que é que dá / tem gente de toda cor / tem raça de toda fé / guitarras de rock'n roll / batuques de candomblé" é festejado por multidões insuspeitas na variedade de cores e acolhido como música-tema nacional durante a Copa do Mundo (como aconteceu em 2002), há algo de valioso - e atualizado - a ser notado.

Mas talvez tudo isso aconteça porque havia também algo de preciso na narrativa do Brasil feita por Gilberto Freyre, entre outros. Narrativa que o texto de Elio Gaspari lincado acima me poupa da tarefa de livrar da acusação de negligenciar a brutalidade da escravidão. Mas cujo mérito está justamente em não se limitar a ela, e avançar na exploração da complexidade, ambiguidades e nuances da experiência brasileira. Pretender vinculá-la à sua apropriação indébita pelos Demóstenes Torres das nossas tribunas equivale ao sociólogo Demétrio Magnoli buscando associar o movimento negro ao nazismo, já que ambos lidam com a noção de raça. Nos dois casos, ativismos excessivos turvando a compreensão mais fina do que está em jogo.

E mais uma vez, o requisito de sutileza responde aqui a mais do que um mero preciosismo.

Porque na observação da complexidade e na defesa da evidência da mistura há de estar, como esteve antes, a dica para a formulação de uma saída original para o dilema da quitação da dívida histórica sem o apequenamento do "branco é branco, preto é preto" e da "one drop rule" que acompanham as políticas afirmativas no contexto norteamericano que as inspira. Padê em lugar de apartheid, encontro e entrelaçamento mais ainda que multiculturalismo, como sugere Antonio Risério.

Por sua vez, na desconstrução do paralelo vulgar de Magnoli, uma pista que pode talvez ajudar a colocar a conversa em termos mais adequados: o que está em debate não é uma questão racial, mas histórica. A justificativa para o benefício das políticas afirmativas aos negros e mestiços brasileiros não deriva da sua negritude em maior ou menor grau, mas do legado secular da escravidão. Ele sim segue presente como uma de nossas características nacionais (embora e felizmente talvez já não a única), e é o imperativo do seu banimento tardio que particulariza neste caso os grupos sociais em questão.

Tudo isso pode soar evidente, mas são detalhes que importam, e os rumos das leituras da semana fizeram sentir a necessidade de agregar o palpite. Para fazer isso, quero crer, é permitido repudiar os sofismas de Demóstenes e Magnoli sem precisar levar junto as visões policromáticas de um Gilberto, seja ele Freyre ou Gil, e de quem mais atender ao chamado do gueto, seja ele Pelourinho ou Capão Redondo. Inclusão nas universidades, empresas, governos e espaços de poder em geral pode e deve afinal de contas ter tudo a ver com mistura.

4.3.10

consciência mulata


Ainda Mano Brown na Rolling Stone:

De cor parda ("e raça negra"), Brown diz que os iguais a ele, mestiços, sofrem mais com o racismo do que os negros atualmente. Na visão dele, os pardos não usufruem do recente fortalecimento da autoestima do povo negro, que acontece há mais de uma década e engloba desde o sucesso dos Racionais até a eleição de Barack Obama. "No Brasil, você não vê gente da minha cor fazendo comercial, fazendo nada. Se eu não fosse o Mano Brown, seria invisível na rua." Há uma música sobre o tema pronta para o novo disco dos Racionais, não por acaso intitulada "O Homem Invisível".

Nas conversas com o negro Ice Blue, o assunto também surge. "Sou até muito mais discriminado do que o Blue. E os caras da minha cor, desse meu tom de pele, também. Você vê nas cadeias, na Febem. O cara tem medo hoje de discriminar um cara como o Blue, tem medo de falar um 'a' para um preto. Agora, um cara como eu, é toda hora, irmão. É pobre, tem cara de pobre, tem cor de pobre. Se quiser, fala que é 'moreninho'. Tenho um biótipo de ladrão. É um lance do brasileiro. Quando a escravidão estava para ser abolida, tinha muitos filhos de branco com preto nas ruas, abandonados, que não eram nem um nem outro, e foram virar ladrão mesmo. A primeira classe de gente abandonada foi a dos filhos de branco com negro, o filho rejeitado do patrão. Foram os primeiros vagabundos, que não serviam nem para um nem para outro, nem para escravo nem para senhor. É uma teoria pequena minha, não é a regra."

23.2.10

fim da canção


Fim da canção é um mote sedutor. Tem a atração acolhedora de toda melancolia.

Termino de ler o ensaio de Fernando de Barros e Silva, na revista Serrote, sobre o assunto.

Como todos antes dele, ele persegue a lebre levantada por Chico Buarque no final de 2004 (em entrevista ao próprio Barros e Silva): "Assim como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido. [...] Quando você vê um fenômeno como o rap, talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou."

O texto é bom, repleto de insights e referências instigantes. A tese é simples: a proposta de Chico não pode ser tomada ao pé da letra, ou da partitura, mas sim em seu conteúdo simbólico. A canção, é claro, continua a existir, apenas com menor originalidade e centralidade (como a ópera, sempre se poderia dizer). Não vem ao caso discutir isso. O fim que conta é o do mito/projeto dela como expressão refinada de uma identidade comum do povo brasileiro.

E conta mais, propõe Fernando, pelo que revela dos caminhos do Brasil de hoje: "Se essa discussão vai além de um cabo de guerra tolo entre especialistas, para tocar, como sugerimos, em um nervo sensível da cultura, é também porque ela transborda por todos os lados e exprime uma dúvida de fundo a respeito do momento histórico atual."

O fim do mito da canção seria o correspondente estético do esgotamento de seu projeto político. Fala José Miguel Wisnik: "No Brasil, a possibilidade de haver música popular difundida em grande quantidade e com extraordinária qualidade ligou-se ao mesmo tempo ao horizonte de uma modernização progressista do país." Este horizonte, diz Barros e Silva, é que teria sumido junto com a canção do nosso campo de visão.

Não é pouca coisa. E alguém poderia sugerir que é projeção demais para um pobre violão (tanta expectativa em torno da música popular faz pensar no Fitzcarraldo de Werner Herzog, empenhado em levar ópera Amazônia adentro). Mas é justo também: a canção popular no Brasil guarda a marca profunda de um tempo (ou de um século, como propõe Chico), e um tempo em que todos souberam cantar "Chega de Saudade" tem sua beleza a ser velada.

Só que Fernando de Barros vai além. Logo depois de alertar que o mito/projeto em questão nunca foi muito mais do que das classes médias letradas dos centros urbanos, trai-se na constatação de um "rebaixamento brutal do gosto" e uma "regressão da audição" no Brasil de hoje, por conta da hegemonia de gêneros como o neosertanejo, o axé ou o pagode (e é sintomático que não lhe ocorra então falar em funk, brega ou forró eletrônico). Recorre a uma excelente oposição proposta por Marcelo Coelho entre "Gente Humilde" ("e eu que não creio, peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar"), de 1969, e "Subúrbio" ("lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente, que futuro tem aquela gente toda), de 2006, para enxergar aí um Chico Buarque, como aquelas mesmas classes médias letradas, inquieto diante da afirmação regressiva de linguagens e poderes periféricos.

Nesta leitura, o "fala Penha, fala Irajá, fala Encantando, Bangu, fala Realengo" de "Subúrbio" seria antes uma rendição do que uma saudação. O "evoé, jovens à vista" de "Paratodos", em 1993, não teria sido bem para esses jovens (os da "língua do rap"). E Chico estaria então "exilado dentro de casa" - a canção, o Rio de Janeiro, o Brasil.

Não é o caso de disputar com Barros e Silva a primazia da interpretação de Chico Buarque (o mesmo de "Carioca" e "Baioque"). Mas talvez seja o de propor que cada um fale por si.

Chico em 2004 apenas cantava a bola da década de Lula, das periferias emergentes e do "agora por eles mesmos". E o fazia com a grandeza e generosidade habituais, sem em nenhum momento pedir que não se altere o samba tanto assim. Não é a ele portanto que qualquer saudosismo deve ser imputado.

Já eu, por exemplo, escrevo tudo isso sem conseguir deixar de pensar na "Lapa" de "Guinga e Pedro Sá", "Lula e FH", cantada por Caetano ainda no ano passado. Ou em Mano Brown reverenciando "Construção" na Rolling Stone. No êxito não-tutelado dos dois filhos de Francisco, de Chimbinha e Joelma, Marlboro e Márcio Victor (e de Lula também, por que não?). Em Marina Silva e MV Bill advogando educação de qualidade.

As imagens poderiam multiplicar-se, até bem além dos limites do "nosso samba" de "Feitiço", que já em 2002 tinha "mangue beat, berimbau, hip-hop, Vigário Geral, Capão Redondo e Candeal". E funk. Imagens todas, creio eu, da mesma década antevista por Chico e que escapam sugestivamente ao radar de Barros e Silva.

Não ignoro, é claro, as acusações de complacência que sua invocação pode despertar. Nem o muito por avaliar na distância entre o país, a "nova classe média" e a musicalidade que resultam daí e os roteiros de progresso e inclusão traçados pela canção. Mas gosto de refletir sobre a oposição entre as repetições insistentes de "tem" em "Feitiço" e de "não tem" em "Subúrbio". E vejo inícios (ou continuações) demais em tudo isso para satisfazer-me com o "fim de linha histórico" a que Fernando de Barros chega no final de seu ensaio.

Tem mais samba o perdão que a despedida. Diante de um texto tão genuinamente belo como o de Barros e Silva, não serei eu a reivindicar a massa afinal comendo o fino biscoito que fabricamos. No fundo, a motivação fundamental desse artigo é apenas a de não poder deixar de notar os riscos de excessos no trato tanto com mitos, quanto com contramitos. Ao apontar a mistificação contida nas expectativas das classes médias letradas em relação à canção, Fernando de Barros lembra como elas "muitas vezes, inclusive no período em questão, confundiram suas aspirações (e ilusões) com os interesses nacionais". Talvez seja preciso cuidado para não fazer o mesmo com as desilusões.

17.12.09

bolsa família


Marcus Vinícius Faustini, em "Guia Afetivo da Periferia":

"Só conheci leite tipo B por causa do governo Brizola. Antes dele era raro leite lá em casa. Um saco tipo C, geralmente da marca CCPL, tinha que durar a semana inteira, e, para isso, a maior parte do copo americano tinha que ser de café. A fiscalização de minha mãe e de meu padrasto era permanente. Misturar Claybom no café era minha saída para a situação. Ganhar o saquinho individual de leite diariamente na Escola Estadual Euclydes da Cunha fez o nome de Brizola circular no recreio mais do que o medo da professora de Educação Moral e Cívica."

17.10.09

conjuntura


"Lula-lá" é certamente o chamado político mais emblemático dos últimos 20 anos no Brasil. O futuro naquele momento tinha dono.

Trocada em miúdos, a história brasileira recente é próxima da melhor possível, mas também da mais previsível. A parcela da sociedade e a geração a quem normalmente caberia conduzir a transição democrática e o poder político no país a partir de então de fato assumiram e cumpriram o papel. Lula e FHC, o PT e o PSDB, a USP, a CUT e a hegemonia paulista são a expressão deste enredo. E foram bem, como todo o país, ninguém pode negar.

É verdade: já não somos o país do improviso, já não nos orgulhamos de levar vantagem, já vamos bem além da clivagem casa grande / senzala. Driblamos menos, mas vencemos mais, com mais consistência e regularidade. Nos reconhecemos em 190 milhões, no cotidiano público, mais ainda do que de camisa amarela. Temos uma classe média urbana majoritária e crescente, ganhando poder. E avançamos com uma missão republicana clara, ainda que gradual.

E agora? Lembro-me de discutir já há um bom tempo com um amigo sobre a ausência de maiores debates sobre os rumos do país ser sintoma de mediocridade ou de normalidade. Deve ser dos dois. Mas o fato é que alcançamos um grau notável de consenso, e tudo indica que o debate eleitoral do ano que vem poderá ter cara de desenvolvido: lateral, além das questões elementares. Como tem dito Marina Silva em sua tarefa de trazer a conversa para o século XXI, a questão será o que enfatizar em acréscimo à estabilidade econômica e às políticas sociais, que são já conquistas incorporadas por todo mundo. Commodities, para usar o vocabulário da vez.

Uma controvérsia chave poderia ser a dos limites do Estado, nesta nova era de bonança e horizontes de crescimento. Mas outro fato é que gostamos demais de Estado. Depois de todos os ensaios, não somos mesmo liberais. É quase irresistível deixar-se abrigar sob a sombra dos auspícios estatais - meus incentivos, meus benefícios, meus financiamentos, minha terra etc.. E a máquina política montada em torno da distribuição deles. Mais democrática do que antes: um naco para cada um, direitos em lugar de benesses. Mas se deixar, não menos patrimonialista. E sempre fonte de concessão de benefícios.

Sobra pouco espaço para dilemas, se o rumo é claro e os papéis inevitáveis. Pouco espaço para novas rodadas de institucionalização e despersonalização, se a máquina se cristaliza na intermediação. Pouco espaço para avançar, além de seguir a inércia, o que já não é pouco.

A resposta poderia vir justamente das novas classes médias urbanas, filhas da iniciativa, de conquistas individuais e novidades do tabuleiro social brasileiro. E das novas gerações das velhas classes também. Mas elas são verdes ainda. Aécio, Marina e Ciro têm, cada um na sua raia, a cara delas (como poderia também ter um liberal-conservador pátrio, mas este ainda não tem rosto).

É interessante observar a tensão geracional das pré-candidaturas sobre a mesa: Dilma versus Ciro, Serra versus Aécio, e Marina por fora, novo Lula, ou Lula e meio. Fim de um ciclo ou extensão dele? Extensão como coroação ou como diluição? Marina, Aécio e Ciro inspiram pela evidência de que contém muito mais o futuro, cobrando passagem. Mas o futuro talvez não seja agora. Porque ainda há ciclo por cumprir ou porque seus titulares ainda podem se impor, contra o tempo.

A resposta virá nos próximos meses. Por ora, o terceiro fato é que o futuro ainda não tem dono, nem forma. Sem jingle, bandeiras ou militantes. Ele será certamente mais difuso e diverso do que ontem, mais "em rede", mas faria um bem danado que alguém começasse a lhe dar contornos. O que pode haver de novo, ainda que não na agenda macro, mas na micro, que deve mesmo ser a tônica da sequência? Quem tem um novo chamado inspirador para oferecer? Procura-se um programa, para um rosto.

9.6.09

programa de governo


Francisco Bosco, apresentando entrevistas de Risério, pela Azougue:

"Para Risério, o Brasil não pode se contentar com pouco, deve ser capaz de afirmar para si - e para o mundo - um projeto civilizatório. Não apenas o bom funcionamento da macroeconomia, a consolidação das instituições democráticas, o amplo respeito à legalidade; isso é fundamental, mas ainda é pouco. O Brasil deve ter a coragem de, partindo de sua formação, de sua experiência sincrética, radicalizar essa singularidade e lhe dar estatuto de projeto de civilização. [...] Como diz o filósofo Antonio Cicero, o Brasil não deve apenas reivindicar sua particularidade, mas sua universalidade, isto é, propor-se como civilização inspiradora para outros povos. Para tanto, ensina-nos Risério, temos que partir de nós mesmos, da realidade biológica e simbólica de nossa mestiçagem: aí onde está a evidência de nossa formação, devemos ver o segredo de nosso futuro histórico."

28.5.09

presidencialismo de coalizão


John Merriman, "A History of Modern Europe":

"But sovereigns needed to woo nobles to gain their compliance. In exchange for loyalty and in many cases service, rulers confirmed noble privileges and allowed them to continue to dominate state and local government. "Tables of ranks" dividing nobles into distinct grades or ranks were established at the turn of the century by the kings of Sweden, Denmark, Prussia, and Russia, making it clear that noble privileges were bestowed by monarchs. Louis XIV of France (ruled 1643-1715) asserted the right to monitor the legitimacy of all titles and even to confiscate noble estates. In 1668, he ordered the investigation of "false" nobles holding dubious titles. These measures helped the king maintain the loyalty of nobles, some of whom resented those who held titles they considered suspect. The great noble families thereafter enjoyed an even greater monopoly over the most lucrative and prestigious royal and ecclesiastical posts."

16.5.09

polca-lundu


Joaquim Manuel de Macedo:

"E o pior é que o gosto e a originalidade desses cantos, cuja música tinha um caráter que a fazia distinguir da música característica de todas as outras nações, têm-se ido perdendo pouco a pouco, sacrificada ao canto italiano, cuja imitação é, desde alguns anos, o pensamento dominante dos nossos compositores. As modinhas e os lundus brasileiros quase que já não existem senão na memória dos antigos; foram banidos dos salões elegantes e com todos os costumes primitivos, à semelhança das aves que, espantadas dos bosques vizinhos do litoral pelo ruído da conquista dos homens, fogem para as sombrias florestas do interior. Lá se acham proscritas, e felizmente ainda conservadas com a sua patriótica pureza no seio dos vales e no trono das montanhas, onde a população agrícola as asila em seus lares, vive com eles, alimentando a flama das recordações passadas que o estrangeirismo apagou nas cidades.

Para a música característica brasileira isso é uma verdadeira calamidade e a ópera nacional, recentemente criada, se quiser ser nacional, deve opor-se à continuação de tão grave erro, excitando os nossos novos e talentosos compositores a escreverem naquele gosto que, bem aproveitado pela arte, pode produzir obras originais e de incontestável merecimento."

2.5.09

casa grande


Do Extra:


"Cirene Darck, de 54 anos, prestou queixa ontem, na 24a DP (Piedade), contra sua empregada, Nádia Pereira. Segundo Cirene, Nádia a agrediu violentamente por motivos religiosos. A patroa é adepta de cultos afros e a empregada, evangélica. Abalada e machucada, Cirene contou que foi empurrada, espancada e presa num quarto que, posteriormente, foi incendiado pela empregada."

1.5.09

luiz inácio


"Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu."

Mas há quem discorde: http://corruptosbrasileiros.spaces.live.com/blog/cns!C2D7198622BECBFC!2737.entry.

 
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