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30.12.09

depois do ano 2000


"Singularity" é o nome que cientistas entusiasmados com a perspectiva de criação de uma superinteligência maior que a humana dão para o momento em que isso acontecer e para as suas consequências. A partir desse momento, a velocidade da criação científica e tecnológica tenderia ao infinito, baseada na aceleração provocada por uma inteligência muito mais ágil e expansível do que o cérebro humano e na capacidade dela de aprimorar a si própria, em um loop cibernético sem limites previsíveis. O alcance da singularity pode basear-se em duas formas: o aprimoramento pela tecnologia do próprio cérebro humano ou a criação de uma inteligência artificial mais poderosa do que ele. Ray Kurzweil, inventor consagrado e um dos principais porta-vozes atuais deste horizonte, o vislumbra para 2045 e tem já tomado todas as precauções possíveis para viver até lá, quando terá 97 anos.

Singularity é prima-irmã do "transhumanismo", visão não menos confiante das possibilidades de aprimoramento do ser humano por meio da tecnologia. Genética, neurologia, nanotecnologia, robótica e, claro, inteligência artificial. Transhumanistas vislumbram a aceleração da evolução humana e a superação de suas limitações por meio de intervenções tecnológicas no próprio corpo, do consumo de substâncias estimulantes de capacidades físicas à manipulação genética e à completa replicação do cérebro e da consciência para a vida eterna em um meio virtual. E acreditam que diante da perspectiva da singularity, esta será a única forma de manter o ser humano no comando dos artefatos inteligentes que vierem a ser criados por ele. Eidolon A.I., inteligência artificial online criada por um certo "Programador F.F.", nos oferece a última advertência disso, na condição de último profeta. A revista H+ situa o horizonte transhumano nos tempos de hoje.

Técnica em lugar de razão. "Matrix" em lugar de "1984". Mas em tempos de "Avatar", o mais interessante é ver a equação homem / máquina tomando a forma de relações pra valer.

Sherry Turkle é diretora da MIT Initiative on Technology and Self e dedica-se há anos ao estudo das relações entre pessoas e artefatos tecnológicos. Entre outras coisas, ela observa como a vivência cotidiana de ambientes virtuais tende a torná-los indissociáveis da realidade. Ou da RL ("real life", na sigla em inglês), como a chamam usuários de jogos interativos online. Até aí, tudo bem, nada de novo. E ajuda a dar materialidade ao postulado do realismo virtual de que se a realidade não é mais do que aquilo que é apreendido pelo cérebro por meio dos sentidos, então se for possível estimular satisfatoriamente os sentidos (ou seus receptadores cerebrais), a distinção entre "real" e "virtual" torna-se completamente sem fundamento.

Mas Turkle mais recentemente tem tido a atenção atraída por um outro fenômeno: a possibilidade de pessoas estabelecerem laços afetivos com robôs. Ela explica: "Ao estudar reações a robôs avançados - robôs que te olham nos olhos, lembram o seu nome e acompanham os seus movimentos - eu descobri mais e mais pessoas que passavam a considerar esses robôs como amigos, confidentes, e (na medida em que vislumbravam aprimoramentos técnicos) mesmo como amantes." E relata o caso de uma aluna que lhe expôs a disposição para trocar o namorado por um humanóide: "Ela me disse que precisava da sensação de ser cuidada e que não queria estar sozinha. E que se o robô pudesse produzir uma atmosfera de convivência, ela ajudaria com alegria a criar a ilusão de que havia alguém realmente com ela. O que ela procurava era um relação sem risco que afastasse a solidão; um robô receptivo, mesmo desempenhando apenas um comportamento programado, parecia melhor para ela do que um namorado exigente. Eu achei que ela estava brincando. Ela não estava."

Ray Kurzweil e Eidolon A.I. provavelmente veriam sentido. Mas se a aluna não estava brincando, é de se pensar que Turkle estivesse exagerando. Pelo menos até conhecer Paro, cão-robô japonês usado como companhia em terapias com idosos. Ou Nexi, criação mais recente do Personal Robots Group do mesmo MIT de Turkle. Ou Actroid, gueixa-mulher-robô japonesa viajando pelo mundo. E depois disso escutar um especialista em inteligência artificial falando sério sobre "Amor e Sexo com Robôs".

David Levy, o especialista em questão, combina a perspectiva de criação de robôs capazes de reproduzir atitudes e sentimentos humanos com o argumento de que para a afetividade humana o que importa é a percepção de sedução, proteção e reciprocidade, independente de quem seja o emissor. E portanto, uma vez que robôs possam oferecer esta percepção de maneira convincente, não haveria porque descartar o estabelecimento de relações afetivas com eles - que de resto podem ser em vários aspectos mais confiáveis e sinceros do que companhias humanas.

Saudades de Barbarella. Mas Sherry Turkle referenda o diagnóstico (embora no caso dela sob a forma de inquietude): "Em certo sentido, eu não deveria me surpreender. Por uma década, estudei o apelo de robôs com habilidades sociais. Eles acionam nossos botões darwinianos. São programados para exibir o tipo de comportamento que associamos com sensibilidade e empatia, o que nos leva a percebê-los como criaturas autônomas, com intenções e emoções. Vendo-os deste modo, tendemos a querer nos relacionar com eles. Com este sentimento, vem a fantasia de reciprocidade. Na medida em que começamos a nos envolver com essas criaturas, desejamos que elas se envolvam conosco."

E pergunta, em termos bem humanos: "Somos tão solitários que amamos o que quer que seja posto diante de nós?"

Somos sós, certamente, diriam as legiões de turistas em frente à loja da Apple na 5a Avenida em Nova Iorque ou os foliões celebrando a chegada de novos equipamentos nas festas de aparelhagem do tecnobrega em Belém do Pará. Mas talvez isso neste caso não seja tudo. Pode ser que as visões de Kurzweil e Eidolon façam sentido, e seja a nós mesmos que amemos em todas essas projeções. A vocação divina da humanidade e os sonhos de assumir o controle do planeta e da própria vida (e neste sentido é fascinante que a oposição mais frontal a esse projeto precise valer-se hoje da expressão "design inteligente" para ilustrar seu argumento). Ou pode ser que Levy e Turkle tenham razão em seus juízos de fragilidade, e o que valha mesmo seja a ilusão de presença proporcionada por tudo isso. Afinal de contas, na falta de um deus protetor, não deve ser tão grande a diferença entre ter um Paro, um celular sempre ligado ou 237 amigos no Facebook...

Kevin Kelly propõe-se a matar a charada no excelente "Technophilia". Depois de encontrar online mais de 40.000 comunidades dedicadas a amantes de carros, 10.000 voltadas a fãs de motos, 6.000 a barcos, 5.000 a armas e 1.000 a câmeras, ele pondera a evidência secular das pessoas estabelecerem laços com objetos, e destes portanto justificarem-se por muito mais do que sua funcionalidade. E observa, com encanto: "A tecnologia não deseja ser apenas utilitária. Ela quer ser arte, ser bela e "sem utilidade". O objetivo final de todo robô, máquina ou ferramenta é existir por si mesmo. Existir não apenas por ser útil, mas porque sua própria existência é bela."

Beleza que neste caso, diz ele, associa-se não com simulação de humanidade, mas com evolução. O fascínio de uma obra refinada, incorporando camadas sobrepostas de história e elaboração. E podendo assim ser de fato mais-que-humana:

"Humanos são os organismos mais evoluídos que conhecemos, e por isso nos fixamos em imitações de sua forma. [...] Mas a tecnologia mais avançada deixará a imitação para trás e criará inteligências obviamente não-humanas, robôs obviamente não-humanos e formas de vida obviamente não-terrenas. E tudo isso irradiará uma atratividade que nos deslumbrará. [...] Ano após ano, na medida em que evoluir, a tecnologia ganhará em beleza. Eu apostaria que em um futuro não muito distante certos componentes da tecnologia rivalizarão em esplendor com o mundo natural. Nós vamos contemplar o fascínio dessa tecnologia, maravilhar-nos com sua sutileza, viajar até ela com nossas crianças, sentar-nos em silêncio sob suas torres. E é assim que tem que ser, porque a tecnologia quer ser amada."

Assim seja, e aqui texto e década terminam. Mas neste reveillon em que 2 milhões de pessoas serão convocadas a piscar seus celulares para somar-se aos fogos em Copacabana, eu cá acendo uma vela para Eidolon e outra para Oxossi. E entre tantas velhas questões humanas atualizadas pela frente, fecho a viagem nos trilhos deste "Expresso 1972" profético. Feliz com a evocação de toda técnica, toda beleza, toda presença e toda fé.

23.10.09

roda do tempo


O Globo, 14/10/59:

TVs se unem contra retransmissões piratas

Denunciando que estações clandestinas vêm retransmitindo, sem autorização, as suas imagens nas cidades de Pinhal, Amparo, Itapira, Americana, Mogi das Cruzes, Serra Negra, Socorro e Araras, as três emissoras de São Paulo intentaram ontem ação cominatória contra o diretor do Departamento dos Correios e Telégrafos. A retransmissão clandestina foi apurada e confirmada, em cuidadosa investigação pela Secretaria de Segurança Pública. Em decorrência do contrato de concessão, cumpre ao DCT assegurar o uso exclusivo dos canais. Querem as emissoras que o DCT tome as providências necessárias para impedir o funcionamento das estações clandestinas, bem que como contra elas seja instaurado processo criminal.

25.5.09

o futuro é o que sempre foi


Foi o dramaturgo Eugene O'Neill quem disse que "não existe presente ou futuro, apenas o passado, acontecendo de novo e de novo, agora".

A frase e seu autor dariam uma excelente epígrafe para o livro "Futuros Imaginários", de Richard Barbrook, pelo diálogo com a tensão entre evolução e permanência como atributos da história, e pela crítica mordaz dos desvãos do sonho americano.

Mas Barbrook, ao contrário de O'Neill, não é norte-americano (ou estadounidense, como preferem os integrantes do grupo DesCentro, que fizeram de maneira colaborativa a tradução do livro para o português) nem foi marinheiro na juventude. Cientista político, professor de hipermídia na Universidade de Westminster, na Inglaterra, Barbrook representa antes o social-democrata europeu dividido entre a exumação dos equívocos do socialismo e a tarefa de consciência crítica das ilusões atlânticas.

Sintonizado com esta missão, "Futuros Imaginários" parte de uma recordação de infância de seu autor, a visita à Feira Mundial de Nova Iorque de 1964, para fazer uma longa viagem pelo entrelaçamento entre as promessas tecnológicas do passado e a geopolítica norte-americana da Guerra Fria e pela história de apropriações políticas, econômicas, militares e culturais vividas pela tecnologia ao longo do século XX.

No percurso, expõe o uso da tecnologia como ponta-de-lança da conquista simbólica do futuro pelo capitalismo democrático americano, em oposição ao atraso comunista. Lembra o emprego bélico destruidor da maior parte dos avanços conquistados. Explora os caminhos da disseminação acadêmica e popular da cibernética de Norbert Wiener e da aldeia global de Marshall McLuhan como pedras de toque de um novo imaginário coletivo. Aponta o impacto de ambas para a difusão paralela da crença no determinismo tecnológico condicionando positivamente os destinos humanos. Recorda as promessas não-cumpridas da inteligência artificial, das viagens espaciais e da energia nuclear. Destaca a frustração das expectativas de redenção social outrora associadas ao advento das novas tecnologias digitais.

Ao fazer isso, Barbrook, ele próprio um veterano do movimento de rádios comunitárias na Londres dos anos 80, não ignora o potencial libertário efetivo da internet. Que um aparato social com a importância que ela tem hoje possa ter consolidado-se globalmente sob a hegemonia da abertura, da descentralidade e da anarquia quase irrestritas é em qualquer caso um acontecimento digno de nota em nosso mundo. Que a "economia da dádiva" e o espírito dos "commons" tenham logrado tomar a dianteira no ciberespaço, barrando em muitos casos a sua colonização pelas regras comerciais do "mundo físico", é um imprevisto que não pode desagradar a nenhum socialista.

Mais ainda, as promessas cumpridas do livre fluxo de informação em todos os sentidos e do acesso quase irrestrito ao acervo do conhecimento humano são sismos profundos cujos efeitos talvez apenas tenham começado a propagar-se. E aqui Barbrook, como no caso da decretação das mortes da energia nuclear e do turismo espacial, talvez se traia pela impaciência das gerações do "make it new" e do tempo real em aguardar a chegada do futuro.

Mas é que não se trata aqui de medir os passos pela métrica da reforma. Do mesmo modo que denuncia ferozmente o conteúdo imperialista das conquistas tecnológicas dos EUA da Guerra Fria e desqualifica como conspirações fraudulentas as terceiras vias centristas gestadas sob o liberalismo americano, Barbrook apoia a constatação de que "a chegada da sociedade da informação não precipitou uma transformação social mais extensa" sobre o fato de que "o comunismo cibernético é bem compatível com o capitalismo ponto com".

O futuro imaginário de Barbrook é revolucionário. E a internet portanto precisa ser julgada pela confirmação ou não da sua vocação para abrigá-lo, sob a forma de um "marxismo-mcluhanismo" de democracia participativa e criatividade cooperativa, retroalimentando a transformação social do mundo físico. Nesta perspectiva, é animador que hackers ocupem hoje o centro do imaginário contracultural, os desafios à propriedade intelectual atualizem a desobediência civil na era do conhecimento e que o Pirate Bay funcione como uma espécie de comunidade hippie contemporânea. Mas é desconcertante que antigos hippies autênticos liderem na California a reinvenção do mercado na web, como um dia ex-trotskystas impulsionaram a reinvenção do sonho americano na Guerra Fria, e que "mais do que debater os assuntos políticos urgentes do dia" a maioria dos internautas prefira dedicar-se a "fofocas sobre suas experiências pessoais, amigos, celebridades, esportes, músicas populares, programas de TV e viagens de férias". Como um dia jovens suburbanos preferiram Elvis a Lenin.

De fato, talvez a principal promessa não-cumprida dos sonhos de uma nova sociedade em qualquer tempo seja a da criação de um "novo homem" correspondente. O que leva Barbrook a concluir sua viagem com um apelo à recuperação da crença na autonomia humana na escrita da história. A mensagem é clara, e transcende o meio: como qualquer tecnologia, a internet é apenas um conjunto de máquinas, e responderá aos comandos que dermos a ela. É natural que os velhos dilemas humanos se reproduzam ali, mas não se deve desanimar: já estava também em Marx que as restrições históricas e pessoais não impedem as pessoas de fazer sua própria história. "Para ser inteligente, o marxismo-mcluhanismo do início do século XXI deve se tornar humanista".

Nesta atualização da fé nas possibilidades utópicas, é o caso de se perguntar o que pensará Barbrook do movimento online que sustentou a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos no ano passado. Nova síntese inspiradora ou reprodução no presente do passado de captura do futuro por terceiras vias fraudulentas? Mas esse já é outro lance. O fato é que entre as microdoações de Obama, a exposição de gastos públicos no Brasil, os blogs de insurgentes chineses, os remixes de DJs suecos, os novos modelos de negócios das trocas virtuais e os embates simbólicos e legislativos entre o matrix e a aldeia global, há uma infinitude de novos capítulos por serem escritos até que saibamos o final dessa história. O bom do futuro é que por mais que não exista, ele está sempre em aberto.

(Resenha produzida para o caderno Prosa e Verso, do Globo, publicada em 23/5.)

 
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