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10.7.11
novo movimento
Marina Silva, no Globo:
"Criamos acúmulos que nos levaram a transformações na economia e nas políticas sociais. Talvez agora o acúmulo necessário seja na política. Senão, vamos perder as conquistas que já alcançamos."
8.3.10
freyre e demóstenes
Em causas de alta relevância e polarização, nunca foi fácil argumentar com matizes.
Mas nesta semana de debate das cotas raciais no Supremo Tribunal Federal, uma amiga me enviou o link com a notícia da exposição anticotas feita lá pelo senador Demóstenes Torres, acompanhado do comentário: "O Gilberto Freyre serve para sustentar esse tipo de argumentação. Ele não é só isso, claro. Mas é isso também. E não é pouca coisa ter o Demóstenes Torres evocando Gilberto Freyre para dizer que o estupro foi consensual e que a miscigenação no Brasil foi bonita."
Hoje Elio Gaspari e Miriam Leitão, na Folha e no Globo, reforçam o repúdio devido ao senador.
Não há o que comentar sobre a fala de Demóstenes e seu poder de síntese sobre os malabarismos mentais feitos por parte da elite brasileira para conviver com a própria má consciência. Nem é fácil divergir da amiga em questão (é uma amiga querida, de resto).
Mas a observação dos matizes necessários neste caso me impede de desconsiderar uma diferença primordial: eu acho sim que a miscigenação brasileira foi e é uma coisa bonita. Ou pelo menos, para formular em termos que permitam um acordo, que tem sua beleza a ser defendida.
Não preciso para isso negar o estupro, o racismo persistente e o fato da escravidão permanecer por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Apenas evitar a armadilha das generalizações binárias no calor do combate. E isso não por um capricho acadêmico ou literário, mas pelo valor que tem também para a história das relações humanas no Brasil.
O povo chocolate e mel da refavela de Gilberto Gil e a japonesa loura e a nordestina moura da São Paulo do Premeditando o Breque são um fato (e têm sua própria complexidade a exigir atenção, como nos lembra Mano Brown no trecho destacado no Consciência Mulata publicado abaixo). Como o são também o sincretismo cultural e religioso e os caboclos, cafuzos, mamelucos e mulatos ("pardos", na sintomática - pela sugestão de negatividade que contém - terminologia aglutinadora adotada pelo IBGE) espalhados por nossas vastas solidões.
A criação de um imaginário capaz de saudar esses fatos e acolhê-los como parte constituinte da nossa identidade em formação não foi simplesmente uma conspiração da elite branca para ocultar o passivo da escravidão e evitar o surgimento de uma consciência negra no país, mas também e principalmente uma construção histórica notável, em um momento em que o conceito de raças e o elogio da pureza racial ainda circulavam com desenvoltura no universo intelectual do ocidente. Não foi pouco nem gratuito ter sabido responder a isso com o ideal da mistura como fundamento do nosso próprio valor e singularidade.
Não foi e não é, em um momento em que o convívio com o diferente está longe de ser um problema resolvido naquele mesmo universo. Quando um chamado como "hoje tem festa no gueto / pode vir, pode chegar / misturando o mundo inteiro / vamos ver no que é que dá / tem gente de toda cor / tem raça de toda fé / guitarras de rock'n roll / batuques de candomblé" é festejado por multidões insuspeitas na variedade de cores e acolhido como música-tema nacional durante a Copa do Mundo (como aconteceu em 2002), há algo de valioso - e atualizado - a ser notado.
Mas talvez tudo isso aconteça porque havia também algo de preciso na narrativa do Brasil feita por Gilberto Freyre, entre outros. Narrativa que o texto de Elio Gaspari lincado acima me poupa da tarefa de livrar da acusação de negligenciar a brutalidade da escravidão. Mas cujo mérito está justamente em não se limitar a ela, e avançar na exploração da complexidade, ambiguidades e nuances da experiência brasileira. Pretender vinculá-la à sua apropriação indébita pelos Demóstenes Torres das nossas tribunas equivale ao sociólogo Demétrio Magnoli buscando associar o movimento negro ao nazismo, já que ambos lidam com a noção de raça. Nos dois casos, ativismos excessivos turvando a compreensão mais fina do que está em jogo.
E mais uma vez, o requisito de sutileza responde aqui a mais do que um mero preciosismo.
Porque na observação da complexidade e na defesa da evidência da mistura há de estar, como esteve antes, a dica para a formulação de uma saída original para o dilema da quitação da dívida histórica sem o apequenamento do "branco é branco, preto é preto" e da "one drop rule" que acompanham as políticas afirmativas no contexto norteamericano que as inspira. Padê em lugar de apartheid, encontro e entrelaçamento mais ainda que multiculturalismo, como sugere Antonio Risério.
Por sua vez, na desconstrução do paralelo vulgar de Magnoli, uma pista que pode talvez ajudar a colocar a conversa em termos mais adequados: o que está em debate não é uma questão racial, mas histórica. A justificativa para o benefício das políticas afirmativas aos negros e mestiços brasileiros não deriva da sua negritude em maior ou menor grau, mas do legado secular da escravidão. Ele sim segue presente como uma de nossas características nacionais (embora e felizmente talvez já não a única), e é o imperativo do seu banimento tardio que particulariza neste caso os grupos sociais em questão.
Tudo isso pode soar evidente, mas são detalhes que importam, e os rumos das leituras da semana fizeram sentir a necessidade de agregar o palpite. Para fazer isso, quero crer, é permitido repudiar os sofismas de Demóstenes e Magnoli sem precisar levar junto as visões policromáticas de um Gilberto, seja ele Freyre ou Gil, e de quem mais atender ao chamado do gueto, seja ele Pelourinho ou Capão Redondo. Inclusão nas universidades, empresas, governos e espaços de poder em geral pode e deve afinal de contas ter tudo a ver com mistura.
1.3.10
11.2.10
política é bola na rede
O presidente Lula gosta muito de futebol e de valer-se de metáforas futebolísticas para falar de política. Eu gosto também, de futebol e da eficiência das metáforas do presidente.
Mas tudo na vida tem sua boa dose. Há algo de errado quando toda a política pode ser equiparada a uma liga de times disputando um troféu.
Lendo os jornais de janeiro, pôde-se acompanhar a chegada de Roberto Carlos ao Corinthians do centenário. A ida de Vagner Love para o Flamengo, compondo com Adriano uma dupla quase tão improvável quanto aquela com que o PSDB sonha para sua chapa presidencial (os "dois Tostões" do presidente Lula). O retorno promissor de Dodô no Vasco. A permanência de Kleber no Cruzeiro, depois do suspense. As tentativas frustradas do São Paulo de tomar Guiñazu do Internacional ou Robinho do Santos. A escassez de novos nomes no Palmeiras.
Do mesmo modo, pôde-se também aprender que o PT joga com Sérgio Cabral no Rio, mesmo se o PMDB não o fizer com Jacques Wagner na Bahia. Que Lula no embalo tenta escalar Marcelo Crivella na chapa de Cabral, mas Jorge Picciani não abre mão da posição. Que Jader Barbalho vai esperar pelas pesquisas no Pará, mas se tudo correr bem volta a formar dupla com a governadora Ana Júlia. Que Michel Temer insiste na vaga de vice e propõe até a elaboração de um programa de governo conjunto para a candidatura com Dilma, mas sugere a Aécio que se ele estivesse na disputa o quadro seria outro. E assim por diante.
Duas pré-temporadas, igualmente monótonas na preparação dos álbuns de figurinhas... Tudo certo com o futebol, que clubes não têm mesmo que se preocupar com mais do que títulos (e a favor deles diga-se que no futebol pelo menos os nomes dos patrocinadores aparecem estampados nos uniformes). Mas não deveria ser demonstração de ingenuidade ponderar que com partidos políticos a história deveria ser outra.
Eu sei: pode-se sempre sugerir que foi sempre assim (a única novidade, se tanto, sendo o momento em que o PT desistiu de vez de cumprir o papel de reserva moral e optou por entrar em campo também e tirar o atraso). Ou que nosso sistema político é assim. Ou que política é assim. Ou ainda propor, com parte da melhor ciência política nacional, que apesar disso na prática do dia-a-dia executivo e parlamentar nossos partidos não deixam de demonstrar mais coesão e inclinações programáticas do que se costuma supor. E apoiar-se nisso para esperar que haja tempo para o jogo melhorar, quando a campanha / campeonato começar pra valer.
Mas ajudaria enxergar mais ideias e propósitos no horizonte - se não dos políticos, pelo menos do jornalismo político. E não anima que tudo que haja proposto até aqui seja uma discussão de torcidas em torno de quem tem mais triunfos paulistas ou brasileiros, comparações de saldo de gols, passes errados e artilharias, e prognósticos sobre quem leva a próxima Libertadores. Vá lá: esta será uma eleição relevante, não um "jogo do século", e nós podemos fazer melhor do que isso.
28.1.10
fóruns
A Folha hoje abre com editorial apontando o amadurecimento e a possibilidade de diálogos entre o Fórum Social Mundial e o Fórum Econômico Mundial de Davos, 10 anos depois da criação do primeiro. Ao lado, Clóvis Rossi observa o fato e o talento de Lula em lograr ser aclamado nos dois foros. E em paralelo, Nelson de Sá destacava ontem em sua coluna "Toda Mídia", citando o New York Times, a expansão de menções ao surgimento de um "Consenso de Pequim", que seria caracterizado por maior envolvimento estatal na economia (e possivelmente menos fé na efetividade da democracia para promover mudanças).
Tudo somado, diz muito do espírito do tempo: tempo de sínteses e de pontuação clara da conclusão da década que termina e do horizonte para a que começa. Conta muito do imenso espaço simbólico (global) ocupado por Lula nesse contexto. E das razões para Serra e Dilma dominarem o centro do tabuleiro do pós-Lula, barrando a passagem geracional representada por Aécio, Ciro e Marina. Todos, de formas distintas, encarnando mais juventude, abertura e modernidade do que o futuro próximo parece pedir. Mas apesar de cultivar um gosto pessoal por passos adiante (e por isso não abrir mão do papel de "mantenedora de utopias" autoinvocado por Marina), sínteses, além de parte do percurso, costumam ser positivas também. Vamos a isso portanto, se for isso mesmo.
Falando em símbolos sugestivos, é curiosa também a coincidência do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, acontecer na mesma semana da Campus Party, em São Paulo. E curioso observar as repercussões dos dois eventos. Mas essa já é outra dimensão da conversa sobre modernidade, abertura e juventude. Ou talvez não...
17.12.09
bolsa família
"Só conheci leite tipo B por causa do governo Brizola. Antes dele era raro leite lá em casa. Um saco tipo C, geralmente da marca CCPL, tinha que durar a semana inteira, e, para isso, a maior parte do copo americano tinha que ser de café. A fiscalização de minha mãe e de meu padrasto era permanente. Misturar Claybom no café era minha saída para a situação. Ganhar o saquinho individual de leite diariamente na Escola Estadual Euclydes da Cunha fez o nome de Brizola circular no recreio mais do que o medo da professora de Educação Moral e Cívica."
3.12.09
autoridade moral
"La ilegal base de Guantánamo, convertida en campo de concentración por obra y gracia de la pasada administración de la Casa Blanca, ha sido un reflejo claro de las más brutales torturas y otros vejámenes practicados con los auspicios de los más altos directivos del gobierno, incluyendo al ex ministro de Justicia, al ex vicepresidente y al ex presidente de los Estados Unidos.
[...]
El actual mandatario estadounidense, conocedor del desprestigio de su país por los métodos de tortura aplicados durante la administración Bush, reiteró y aseguró la prohibición de estas. Pero un enorme dilema, el de qué hacer con los responsables de estos hechos, sigue sin respuesta y comprometiendo las palabras del presidente.
La presentación de un informe del Departamento de Justicia sobre las "técnicas de interrogación mejoradas" usadas en el pasado con sospechosos de terrorismo y el pedido de que sus responsables sean procesados, siguen sin encontrar una explicación satisfactoria en la sociedad norteamericana.
La pregunta es: ¿Cuándo y cómo se juzgarán a los funcionarios de alto nivel dentro del gobierno, que dieron la luz verde para el uso de las llamadas "técnicas intensivas" o "mejoradas" en los interrogatorios, y a los agentes que las utilizaron siguiendo las órdenes superiores?"
8.11.09
the great game
"O Afeganistão será a guerra que eles irão perder. É uma guerra perdida, uma catástrofe que se desenvolve. A grande questão para os historiadores será entender por que os dois grandes impérios, o império soviético e o império americano, decidiram morrer militarmente no Afeganistão. Há algo de surpreendente. Não sou crente, mas se tivesse alguma crença, eu veria nas duas guerras do Afeganistão uma espécie de maldição divina. Uma região do mundo totalmente desprovida de interesse: é um problema para os metafísicos, para os moralistas, não para os especialistas em geopolítica."
Ou, como talvez preferisse Todd, para os antropólogos: http://www.wired.com/politics/law/magazine/16-10/sl_mcfate.
17.10.09
conjuntura
"Lula-lá" é certamente o chamado político mais emblemático dos últimos 20 anos no Brasil. O futuro naquele momento tinha dono.
Trocada em miúdos, a história brasileira recente é próxima da melhor possível, mas também da mais previsível. A parcela da sociedade e a geração a quem normalmente caberia conduzir a transição democrática e o poder político no país a partir de então de fato assumiram e cumpriram o papel. Lula e FHC, o PT e o PSDB, a USP, a CUT e a hegemonia paulista são a expressão deste enredo. E foram bem, como todo o país, ninguém pode negar.
É verdade: já não somos o país do improviso, já não nos orgulhamos de levar vantagem, já vamos bem além da clivagem casa grande / senzala. Driblamos menos, mas vencemos mais, com mais consistência e regularidade. Nos reconhecemos em 190 milhões, no cotidiano público, mais ainda do que de camisa amarela. Temos uma classe média urbana majoritária e crescente, ganhando poder. E avançamos com uma missão republicana clara, ainda que gradual.
E agora? Lembro-me de discutir já há um bom tempo com um amigo sobre a ausência de maiores debates sobre os rumos do país ser sintoma de mediocridade ou de normalidade. Deve ser dos dois. Mas o fato é que alcançamos um grau notável de consenso, e tudo indica que o debate eleitoral do ano que vem poderá ter cara de desenvolvido: lateral, além das questões elementares. Como tem dito Marina Silva em sua tarefa de trazer a conversa para o século XXI, a questão será o que enfatizar em acréscimo à estabilidade econômica e às políticas sociais, que são já conquistas incorporadas por todo mundo. Commodities, para usar o vocabulário da vez.
Uma controvérsia chave poderia ser a dos limites do Estado, nesta nova era de bonança e horizontes de crescimento. Mas outro fato é que gostamos demais de Estado. Depois de todos os ensaios, não somos mesmo liberais. É quase irresistível deixar-se abrigar sob a sombra dos auspícios estatais - meus incentivos, meus benefícios, meus financiamentos, minha terra etc.. E a máquina política montada em torno da distribuição deles. Mais democrática do que antes: um naco para cada um, direitos em lugar de benesses. Mas se deixar, não menos patrimonialista. E sempre fonte de concessão de benefícios.
Sobra pouco espaço para dilemas, se o rumo é claro e os papéis inevitáveis. Pouco espaço para novas rodadas de institucionalização e despersonalização, se a máquina se cristaliza na intermediação. Pouco espaço para avançar, além de seguir a inércia, o que já não é pouco.
A resposta poderia vir justamente das novas classes médias urbanas, filhas da iniciativa, de conquistas individuais e novidades do tabuleiro social brasileiro. E das novas gerações das velhas classes também. Mas elas são verdes ainda. Aécio, Marina e Ciro têm, cada um na sua raia, a cara delas (como poderia também ter um liberal-conservador pátrio, mas este ainda não tem rosto).
É interessante observar a tensão geracional das pré-candidaturas sobre a mesa: Dilma versus Ciro, Serra versus Aécio, e Marina por fora, novo Lula, ou Lula e meio. Fim de um ciclo ou extensão dele? Extensão como coroação ou como diluição? Marina, Aécio e Ciro inspiram pela evidência de que contém muito mais o futuro, cobrando passagem. Mas o futuro talvez não seja agora. Porque ainda há ciclo por cumprir ou porque seus titulares ainda podem se impor, contra o tempo.
A resposta virá nos próximos meses. Por ora, o terceiro fato é que o futuro ainda não tem dono, nem forma. Sem jingle, bandeiras ou militantes. Ele será certamente mais difuso e diverso do que ontem, mais "em rede", mas faria um bem danado que alguém começasse a lhe dar contornos. O que pode haver de novo, ainda que não na agenda macro, mas na micro, que deve mesmo ser a tônica da sequência? Quem tem um novo chamado inspirador para oferecer? Procura-se um programa, para um rosto.
10.10.09
nobel da paz
Praise and doubts. Secretário-geral da ONU ou presidente dos EUA? O mundo cada vez mais precisa de algo que se que pareça com um governo global. A ONU não chega nem perto de poder cumprir o papel, Obama seria o cara para a função. Mas o presidente dos EUA, não.
7.10.09
programa de governo 2
"Outra questão é a própria ideia de desenvolvimento. A humanidade não pode mais crescer. Sou a favor do crescimento zero, de caminhar para uma redistribuição em escala planetária da riqueza. Frases como "continuem consumindo" e "comprem mais carro" são criminosas do ponto de vista da espécie. Nesse sentido, a palavra desenvolvimento é péssima, e a palavra crescimento, pior ainda. Nem todo desenvolvimento envolve crescimento econômico; o PIB não mede porcaria nenhuma. O Butão criou um índice de felicidade interna bruta (FIB). Parece piada, mas talvez não seja completamente idiota. Os EUA, que têm um PIB bem maior que o do Brasil, não creio que teriam um nível de felicidade interna bruta maior que o nosso. Não parecem um povo particularmente pacífico, alegre, saudável. Ao contrário: toda semana alguém mata quarenta escolares em algum lugar do país e a obesidade é galopante. Nada que nos faça mirar nos EUA como exemplo de civilização. O Brasil precisa se desenvolver: aumentar o senso de equidade, de justiça, aprender o que é prioritário."
4.9.09
registros da conseg
Em O Outro, Ryszard Kapuscinski faz uma generosa exploração do convívio humano com a diferença. Em textos construídos no final de uma vida de viagens como correspondente na África, Ásia e América Latina, claros como tudo que produziu na sua trajetória jornalística, o polonês Kapuscinski observa como "você pode viver toda sua vida sem pensar, sem refletir sobre o fato de ser negro, amarelo ou branco, até que você cruze a fronteira da sua própria comunidade racial. Então de repente há tensão, de repente você se sente como Outros rodeados por outros Outros". O desafio da segurança pública é essencialmente o desafio do encontro com o Outro. Você pode passar a vida inteira sem travar contato com o policial que é objeto de crítica, medo ou desconfiança. Sem conhecer a história de vida do jovem levado ao distrito policial ou ao IML. Sem desmistificar a distância do cidadão ou do pesquisador em relação ao dia-a-dia do setor. Sem expor-se ao contraditório de experiências e argumentos. Sem cruzar as fronteiras da própria comunidade. E o fato de ser assim é determinante em impedir diálogos, embates e debates que seriam fundamentais para a compreensão necessária das tarefas a serem enfrentadas.
Apenas por essa razão, a realização da 1a Conferência Nacional de Segurança Pública já mereceria ser celebrada. Não apenas pela sua etapa nacional, concluída domingo passado em Brasília, mas por todo o processo de conferências municipais, estaduais e livres que a antecederam durante o ano, envolvendo de acordo com o Ministério da Justiça mais de 500.000 pessoas em todo o país. Estavam todos lá: policiais federais, rodoviários, militares e civis, oficiais, praças, delegados, agentes, guardas municipais, gestores, pesquisadores, ativistas, ONGs, associações, movimentos sociais e de direitos humanos. Ou talvez seja já possível dizer que estávamos todos lá: com todas as diferenças, conflitos, demandas e propostas diversas, mas parte de uma mesma arena política para contrapô-los e processá-los. E o mais interessante é que por inédito que seja, o encontro não chegava a ser saudado como tal: havia nas salas do imenso Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, como que uma certa naturalidade no convívio, embalada talvez pelas vivências prévias das conferências locais pelas quais passaram os representantes eleitos para estar ali. Já agora, quem sabe, "outros Outros".
Essa esfera pública compartilhada é, como sabemos, condição não apenas da vida democrática, mas também do discurso informado, capaz de produzir sínteses e avanços e de conduzir a conversa para além dos interesses particulares e das posições pré-definidas. A afirmação dela de maneira tão nítida é assim o primeiro saldo da Conseg. É claro, como resultado não apenas do processo deflagrado pela conferência, mas antes de anos de gradual aproximação, construção de envolvimentos e canais de diálogo e mesmo renovação geracional no universo da segurança pública no país. E com anos ainda por vir, certamente. Mas o fato é que a promoção da conferência soube captar e simbolizar este movimento de maneira inédita, e assim projetá-lo incontáveis passos e interlocutores adiante. Aqui estamos.
A certa altura do evento, uma de suas apresentadoras confundia-se no microfone do plenário: "boa noite a todos os participantes desta Conferência Nacional do Meio-Ambiente, quer dizer, da Segurança Pública", para logo em seguida anunciar a exibição "de um vídeo produzido pela CUT, desculpas, pela CUFA". Atos falhos, sinais dos tempos. Seja qual for a interpretação que se quiser dar a eles, ou a opinião que se tenha sobre organizações como a CUT e a CUFA (a confusão da apresentadora poderia muito bem ter sido entre, digamos, o Instituto Chico Mendes e o Instituto de Perícia Técnica), é justo apontar as contradições contidas nos 10 princípios e 40 diretrizes aprovados no final do encontro para questionar qual é mesmo a utilidade prática desse tipo de coisa.
Não é conta fácil de fazer. Mas aqui o bom senso talvez peça antes uma calibragem adequada das expectativas. Se o encontro é inédito, e as vozes diversas, é natural que a soma inclua contradições. O que se poderia esperar com equilíbrio de um processo como esse e pelo que julgá-lo adequadamente? Eu pessoalmente prefiro começar buscando os consensos. Uma série de ideias-chave não chegaram a estar em questão durante a conferência: o entendimento da segurança como um direito universal, equiparável à saúde e à educação (em lugar de instrumento de controle arbitrário); a sua consequente definição como um ramo de política pública, com todos os desdobramentos em termos de qualificação institucional, orientação a prioridades publicamente definidas, atenção às minorias, exposição à participação e controle sociais e avaliação por resultados alcançados (em lugar de burocracias de estado fechadas e reativas); a conciliação entre prevenção e repressão qualificadas como dimensões complementares da tarefa da segurança pública (em lugar de pólos excludentes); a afirmação de valores como os da proatividade, eficiência, informação e inteligência e da qualificação e valorização profissionais como elementos fundamentais da boa atividade policial (em lugar de abstrações secundárias diante do uso da força e do poderio bélico dos equipamentos); entre outras convergentes com isso. Para bom leitor, são elas que estão refletidas na relação de princípios aprovados.
E para bom observador da trajetória do debate sobre segurança no país, não é pouco que seja assim. De novo não apenas em função da Conseg (já que uma observação atenta da evolução recente do debate nos meios de comunicação e no meio político levaria à mesma conclusão), mas captado e simbolizado por ela. A visão renovadora representada por esses princípios conquistou o centro do discurso. Talvez por isso sua onipresença na Conseg sequer tenha sido notada nos primeiros balanços da conferência: ela já foi naturalizada, e trata-se agora de buscar a convergência em torno dos passos práticos - legais (ou constitucionais), institucionais, funcionais e de políticas específicas - para levá-la à realidade.
Esse percurso não costuma ser curto. A coordenadora-geral da conferência, Regina Miki, lembrou em um momento do encontro que o SUS só ganhou forma depois da 8a Conferência Nacional da Saúde. Eu quero acreditar que estamos mais adiantados ou podemos ser mais rápidos do que isso na nossa tarefa no âmbito da segurança (até por termos a oportunidade de aprender muito com as experiências já trilhadas na saúde e em outros setores). Mas em democracias não se conquistam avanços duradouros sem a construção de um acordo social suficiente para isso, e colocada nessa perspectiva, há lucidez em ver com naturalidade a falta de conclusões definitivas na listagem das 40 diretrizes oferecidas pela Conseg. Instituições autônomas, integradas ou reformuladas. Polícias de ciclo completo, polícias municipais, revisões parciais de competências (para registrar ocorrências, processar aquelas de menor potencial ofensivo etc.), valorização das perícias e do sistema penitenciário. Polícias desmilitarizadas, com modelos de gestão e códigos disciplinares revistos ou simplesmente atuantes sob paradigma democrático e comunitário. Extinção ou desburocratização do inquérito policial, ou apenas aprimoramentos nas rotinas de investigação e inteligência. Definição de responsabilidades pelas políticas preventivas e pela atenção a grupos vulneráveis. Revisão dos planos de carreira e das políticas de recursos humanos. Atualização dos papéis da União e dos Municípios, consolidação dos mecanismos de gestão integrada (GGIs e outros) e revisão dos modelos de financiamento. São todos itens conhecidos e escolhas por fazer na agenda do setor, e seria surpreendente se a conferência deixasse de refletir os dilemas e tensões existentes por trás deles.
A novidade é que eles estão todos ali, listados e publicados. Não mais como expressões de lobbies subterrâneos, mas de visões e interesses expostos à luz do dia, como indicavam as faixas instaladas e panfletos distribuídos já na entrada do centro de convenções. Não como resultado do esforço de formulação de um governo, partido político, organização ou indivíduo isolado, mas de um ciclo que alcançou todo o universo de cidadãos, profissionais e instituições dedicadas ao tema no país. Para quem conhece o jogo de soma zero que sempre marcou os embates na área, é mesmo animador que se tenha podido avançar tanto quanto se avançou em temas sabidamente paralisantes.
Em suma, uma arena política compartilhada, um conjunto de princípios comuns, uma pauta clara para trabalhar. É este o saldo e nisso estamos. Pouco a pouco vamos construindo o universo de interlocução e a base social que sempre faltaram à promoção de mudanças na segurança pública no país. Cabe então fechar o balanço, preservar as pontes lançadas e avançar na decantação dessa pauta, já atentos para as eleições que vêm por aí e seu potencial para fixar a agenda política do país para os próximos anos. O movimento impulsionado pela Conseg aponta em boa direção e seria uma pena não aproveitar o embalo.
De volta a Kapuscinski, pelo gosto da boa leitura: "Enquanto isso a cultura, para não dizer o próprio ser humano, é formada pelo contato com Outros (o que é a razão pela qual tudo depende tão intensamente da qualidade desse contato). Para Simmel, o indivíduo é moldado no processo, em relação, em conexão com Outros. Sapir diz o mesmo: 'O verdadeiro lugar onde a cultura acontece é nas interações pessoais'. Outros, vale repetir, são o espelho no qual eu vejo a mim próprio, e que me diz quem eu sou." Como me dizia um colega de grupo de trabalho durante o fim-de-semana em Brasília, agente de polícia civil de Sergipe, "pelo que eu tenho visto aqui e no meu dia-a-dia em Sergipe, estamos agora em um caminho que é daqui pra frente, não tem volta". Não tenho razões para duvidar dele.
28.5.09
presidencialismo de coalizão
John Merriman, "A History of Modern Europe":
"But sovereigns needed to woo nobles to gain their compliance. In exchange for loyalty and in many cases service, rulers confirmed noble privileges and allowed them to continue to dominate state and local government. "Tables of ranks" dividing nobles into distinct grades or ranks were established at the turn of the century by the kings of Sweden, Denmark, Prussia, and Russia, making it clear that noble privileges were bestowed by monarchs. Louis XIV of France (ruled 1643-1715) asserted the right to monitor the legitimacy of all titles and even to confiscate noble estates. In 1668, he ordered the investigation of "false" nobles holding dubious titles. These measures helped the king maintain the loyalty of nobles, some of whom resented those who held titles they considered suspect. The great noble families thereafter enjoyed an even greater monopoly over the most lucrative and prestigious royal and ecclesiastical posts."
1.5.09
luiz inácio
"Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
Muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu."
Mas há quem discorde: http://corruptosbrasileiros.spaces.live.com/blog/cns!C2D7198622BECBFC!2737.entry.
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