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28.11.10

além da dor


É uma observação comum a brasileiros a surpresa diante do valor conferido por outros povos a seus militares e policiais e da união em torno deles em momentos de crise. Com nosso histórico acumulado de arbítrio militar, inépcia estatal e desigualdade, não conhecemos o sentimento de identificação e confiança que ampara este fenômeno.

Armas não são em nenhuma circunstância algo para se desejar. O risco daquela união se dar em torno de projetos autoritários é bem conhecido por nós. Não faltou no Brasil quem respaldasse o arbítrio e a seletividade sociais de grande parte de nossa história. O alerta sobre as possibilidades de desvios e a lembrança da excepcionalidade do recurso à força é por isso sempre fundamental.

Mas ele não deve nos obstruir o discernimento para reconhecer quando algo diferente acontece. E o que aconteceu no Rio nos últimos dias foi decididamente diferente.

Ao contrário de outros momentos de crise da segurança pública na cidade, este encontrou um espírito coletivo de confiança na possibilidade de melhora. Os resultados sólidos obtidos pelas UPPs, combinados com uma tendência de queda nos índices criminais no estado como um todo, abriram caminho para esta percepção.

Encontrou também um contexto social distinto da paralisia excludente que sempre o marcou. No mesmo curso do Brasil, nos últimos anos o Rio reduziu a pobreza em 50%, viu a desigualdade encolher pela primeira vez em décadas e passou a expandir com nitidez as oportunidades de acesso à cidadania e aos mercados de empreendedorismo, trabalho e consumo.

Foram esses movimentos, quem sabe, que alimentaram a convicção de sermos capazes de mais, como sociedade e estado, que a semana revelou. Autoidentificação e autoconfiança lançando as bases para o desfecho diferente de agora.

O governador Sérgio Cabral tem se referido aos acontecimentos desses dias como a “união do estado de direito democrático”. Não é retórico ao dizer isso. Assistimos a uma demonstração emblemática de integração governamental na área da segurança pública há muito demandada no país. A ações policiais refletindo uma capacidade técnica e massa crítica sem dúvida inexistentes no passado. A uma presença das forças armadas bem dimensionada no seu caráter tópico e de suporte operativo. A operações vigorosas ocorridas com o mínimo de baixas, entre policiais, moradores e também criminosos. A meios de comunicação que não se furtaram a estar presentes nos locais das ações, cobrindo-as com a natureza espetacular que inevitavelmente envolvem, mas predominantemente sem perder o equilíbrio na defesa da legalidade na ação pública, e ajudando a promovê-la com seu testemunho. À chegada em regiões como a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão definidas desta vez não como o combate a antros de bandidos, mas como a extensão a essas áreas da legalidade democrática, em benefício antes de tudo dos seus moradores. A uma sociedade civil e população com acúmulo e convergência suficientes para respaldar esses esforços.

O saldo é a sensação de avanço e de estarmos prontos que circula pela cidade agora. O reconhecimento da importância da ação policial, combinado com a convicção de que esta precisa acontecer dentro da lei. O esgotamento da ambiguidade e do glamour em torno de grupos criminosos, associado ao horizonte de garantia universal de cidadania e direitos. A visão comum de uma cidade única, integrada, com a extensão tardia do estado democrático a todo o seu território. A convicção da existência de legimitidade e de condições para que isso aconteça.

Nada disso é mérito de ninguém em particular: resulta sim de anos de aportes, aproximações e apendizados de parte a parte, amadurecimento compartilhado entre policiais de organizações diversas, gestores públicos, ativistas, especialistas, jornalistas e assim por diante. É importante saber disso não apenas para prevenir a soberba, mas para evitar a reiteração de críticas antigas apenas pelo hábito de fazê-las.

Sim, nada será resolvido magicamente apenas por conta de alguns dias bem sucedidos. Há muito por ser feito para o aprimoramento estrutural das polícias fluminenses, além do combate à corrupção e brutalidade no interior delas, para que possam chegar a oferecer no dia-a-dia e em todo o estado a confiança percebida agora. E por valiosos que forem os avanços na segurança, eles só serão completos quando combinados com a integração plena da cidade, social, urbana e econômica. Não vejo razões para duvidar que o Rio, como o Brasil, tem hoje a consciência clara de tudo isso.

Mas nada ajuda mais para que essas coisas possam acontecer do que a demonstração prática vivenciada esses dias da possibilidade dos órgãos públicos atuarem com articulação e eficiência e, mais importante no caso de agora, da existência de algo como uma boa polícia, competente, íntegra e capaz de êxito. O Rio sente e sabe hoje que está avançando e que pode continuar a fazê-lo. E isso - com tudo que haja ainda por ser feito - não pode ter o seu valor subestimado.

Não seria correto tratar as ações dos últimos dias como mais um capítulo da narrativa que envolveu a morte de 19 pessoas com a ocupação desatrosa do mesmo Complexo do Alemão em 2007. Não é justo com os policiais comunitários dedicados cotidianamente às UPPs em áreas diversas da cidade pretender equipará-los a uma “polícia de apartheid” ou a muros e isolamentos acústicos colocados nas fronteiras de favelas. Não contribui para a integração desejada ignorar os esforços na direção dela hoje existentes na cidade (PAC, UPP Social, Morar Carioca, para citar alguns exemplos entre ações diversas governamentais, da sociedade civil e do setor privado).

Momentos de mudança o são também pela exigência da capacidade de percebê-la e reposicionar-se para os passos seguintes diante dela. O jornal “O Globo” tem sido criticado por batizar em sua capa da última sexta-feira a operação na Vila Cruzeiro como o “Dia D da guerra contra o tráfico”. O triunfalismo e o extremismo bélico do paralelo de fato parecem excessivos, mesmo que os sentidos do marco de virada coletiva e da Normandia como território não-inimigo libertado não o sejam. Mas se for uma questão de metáfora, digamos então que cruzamos o Cabo da Boa Esperança. Há um oceano inteiro pela frente e muito ainda pode acontecer, mas sabemos agora que podemos chegar lá.

2.6.10

um rio


O Rio é uma cidade partida. O Rio é uma cidade de cidades misturadas. O Rio é uma cidade única em que as duas afirmações podem paradoxalmente conviver com o mesmo grau de verdade. Ou, para falar com Caetano Veloso, tomando emprestada uma descrição que ele propõe para o Brasil, "com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei, entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime".

O problema é que tendo sido sempre assim, o Rio se acostumou, e a cidade foi tomando a forma dessas divisões. A crença difusa de que a delícia e o sublime da cidade poderiam sobrepor-se a tudo permitiu conviver por tempo demais com desigualdades e descuidos intoleráveis. A multiplicação de fronteiras, embalada pelo declínio econômico e pela expansão das armas, impôs-se minando a vocação para o encontro. "Favela" e "asfalto" converteram-se na imagem síntese de uma cidade que tinha - tem - tudo para ser muito mais plural e bela do que isso.

Na última quarta-feira o AfroReggae inaugurou em Vigário Geral o Centro Cultural Waly Salomão. Batizado em homenagem ao poeta falecido em 2003 e que ao lado de Caetano e de Regina Casé esteve entre os padrinhos de primeira hora do grupo, o centro é fruto de quase uma década de construção, avançando um passo após o outro pelos meandros da captação de recursos e da mobilização de parceiros, desde o lançamento das fundações em 2002 (que precisaram ser profundas, por estarem, como todo o bairro, localizadas sobre uma área aterrada) até os quatro andares de hoje e a praça, também nova, que os circula. O resultado é um espaço de criação e produção artísticas que não deve nada a nenhum outro da cidade, em infraestrutura, equipamentos e excelência, e que passará a abrigar as atividades de música, teatro e dança do grupo e outras tantas - culturais e cidadãs - que certamente surgirão com os muitos encontros proporcionados pela nova casa.

Mas se já é inspirador por sua qualidade e pelo cotidiano que abrigará, o CCWS estimula também pelo que guarda de história e de sentidos. Foi este mesmo Vigário Geral, notabilizado pela chacina que o tempo não permite esquecer (e é bom que seja assim), que motivou Zuenir Ventura a cunhar a expressão "cidade partida", em um 1994 tão distante quanto presente na persistência dos dilemas vividos pelo Rio. De lá pra cá, a história foi contada cada vez mais por novos movimentos surgidos nas áreas da cidade em que estes dilemas se vivem de forma mais presente. Com vigor e originalidade admiráveis, grupos como o próprio AfroReggae, a CUFA, o Observatório de Favelas, o Nós do Morro - para exemplificar aqui com apenas os mais conhecidos, reunidos desde 2007 na aliança "Favela a Quatro" - surgiram e espalharam-se cidade afora, lançando pontes, abrindo canais de transformação e assumindo a responsabilidade de renovar forças e apontar caminhos diante da violência e da exclusão enraizadas.

Pouco a pouco, assumiram também o protagonismo em uma esfera pública que sempre lhes negou voz, mais ainda em primeira pessoa. Não é casual que o novo centro chegue quase ao mesmo tempo que a nova versão do "Cinco Vezes Favela", marco do cinema brasileiro na década de 60, que acaba de ganhar uma atualização, dirigida agora por jovens cineastas residentes em favelas. E não é exagero propor que nesses movimentos estão concentradas hoje a substância e a energia vitais para a reversão das divisões apontadas no início do texto. Recuperar a vocação do encontro para desfazer fronteiras. Vislumbrar um horizonte - e uma agenda pública - de integração, mais ainda do que de mistura.

Construído - ou conquistado - ao longo dos anos juntamente com essa história, o novo centro surge assim como um verdadeiro marco urbano de seu significado. Porque símbolos importam, e este é um símbolo que importa muito, um contraponto oportuno à Cidade da Música na demonstração do que a vitalidade criativa e associativa do Rio é capaz de produzir. É belo e estimulante que seja Vigário a recebê-lo, porque não poderia ser mais marcante a evidência da capacidade de recuperação da cidade mesmo diante dos seus reveses mais profundos.

Por isso é que os integrantes do AfroReggae gostam de dizer que este Centro Waly Salomão não é um centro cultural de Vigário Geral, mas um centro cultural da cidade do Rio de Janeiro, em Vigário Geral. Um espaço concebido e projetado para isso, pronto para receber os moradores de toda a cidade. E para assim projetar adiante o sentido de ambição coletiva que permitiu concretizá-lo: como todo bom espaço urbano e público pleno de significado, irradiando de sua história e de seu dia-a-dia a visão e os enlaces necessários para os passos adiante por cumprir em convívio e igualdade.

É dessa visão e das possibilidades de realizá-la que eles nos falam quando entregam o novo centro para o Rio. Como se dissessem, pela via da expressão cultural que ele abrigará: a gente quer comida, diversão, arte, direitos e oportunidades - cidade inteira, e não pela metade. Ou, em uma conversão de palavras/sentidos que Waly haveria de aprovar, cidade afinal repartida, compartilhada.


17.5.10

depois da pacificação


Na adoção de políticas públicas, como em quase tudo na vida, a definição correta de objetivos é fator chave para o sucesso ou fracasso.

O Rio de Janeiro passou anos sem conseguir decidir os seus em relação às favelas, e especialmente à insegurança e ao domínio das armas dentro delas. Opunham-se de forma irremediável a demofobia secular incapaz de enxergar cidadania em áreas pobres e preocupada exclusivamente em contê-las, e a idealização das comunidades tomando a presença da lei estatal como intrusa ou ameaçadora naquele contexto. Tempos do "favela como caso de polícia" rebatido pelo "polícia para quem precisa de polícia".

O significado das UPPs é antes de tudo o de um formidável passo à frente em relação a este impasse. Sua premissa fundamental é tão óbvia quanto libertadora para os dilemas cariocas: não se trata de prover segurança contra as favelas, mas para elas e seus moradores, como em todas as áreas da cidade. A partir daí seguem-se os desdobramentos implícitos que vão aos poucos ganhando a hegemonia no imaginário comum: favelas, evidentemente, fazem parte do conjunto "áreas da cidade" e por isso devem merecer a atenção prioritária do poder público com essa perspectiva. Sendo assim, o objetivo primordial da política de segurança precisa ser a garantia do controle do território pelo Estado democrático, com a extensão universal das liberdades e direitos que decorrem daí. E para isso, a presença de uma polícia capaz, confiável e cidadã é ponto de partida, como condição mesmo para que outros mecanismos de desenvolvimento e inclusão se estabeleçam e proliferem.

Simples assim, mas é desses simples que tomam anos para amadurecer. Não é, claro, a primeira vez que tudo isso é proposto ou mesmo tentado. Mas é a primeira vez que alcança a sustentação necessária para avançar: na Zona Sul como nos morros, nas polícias como na sociedade civil, na mídia como na opinião pública. Objetivos redefinidos. E com eles salta aos olhos, de forma para muitos surpreendente, o quanto a força inexpugnável das redes de traficantes e milicianos armados nunca esteve de fato no seu poder de fogo, mas sim na lacuna criada pela nossa própria impossibilidade de definir um rumo compartilhado. Resta portanto, do ponto de vista da segurança pública, guardar a direção e mantê-la firme.

Mas o ponto de vista da segurança pública é, neste caso, naturalmente apenas mais um. "Ponto de partida", como indicado acima, para o ciclo renovado de desenvolvimento e inclusão por ter em vista. Uma só cidade. A boa nova é que são muitos os indícios de que esta visão vai também impondo-se, resultando da mesma convergência virtuosa que permitiu o acordo em torno dos objetivos da pacificação.

É notável, e mais ainda no cenário de fragmentação que historicamente caracterizou a vida pública carioca, a sintonia presente entre setores variados dos três níveis de governo, associações e lideranças privadas, vozes acadêmicas e da sociedade civil e organizações e moradores das comunidades em foco em relação às metas comuns de eliminação do arbítrio criminoso no Rio e integração plena das áreas libertadas ao tecido da cidade. Há, é claro, espaço nisso para críticas, dúvidas, ressalvas e acompanhamento atento, como é natural e positivo. Mas o que sobressai é mais uma vez a definição compartilhada de objetivos, permitindo vislumbrar uma soma igualmente positiva de esforços na direção dos passos seguintes. Vão aqui, como exemplo, alguns links ilustrando tanto a constatação como a expectativa.

Talvez o principal aspecto por atentar agora seja que movimentos assim levam tempo. Para usar o termo em voga, a pacificação é marco que inverte o sentido da roda. Insegurança e violência minam coesão e ação coletiva, segurança e paz fazem o contrário. Mas aqui vale o lugar comum de que 30 anos (ou mais de 100, para quem considera o histórico completo de abandono das favelas cariocas pela cidade/sociedade formal) girando errado não se desfazem em dois tempos.

Reintegrados os territórios, é preciso caminhar na dissolução das muitas dimensões de ilegalidade ou informalidade (relacionais, urbanísticas, econômicas) que marcam o seu cotidiano - um desafio, de resto, de toda a cidade, ainda que com graus e conteúdos específicos variáveis. Algo por fazer de forma gradual e com sensibilidade às particularidades de cada local, mas necessário. É preciso fazer a lição de casa, de novo tão óbvia quanto renovadora, de universalizar o acesso aos serviços urbanos e sociais básicos (infra-estrutura, educação, saúde, trabalho e renda). Encontrar os caminhos para tornar dinâmico e sustentável o desenvolvimento deflagrado.

Tudo isso tampouco é novidade, e talvez possa também ser já incluído entre os consensos. Mas é tarefa para muito caminhar, diálogos e formulação, tentativas e aprendizados. Depois da pacificação, o desafio é portanto manter o impulso da roda para impedir que a resistência natural dos fatores de exclusão e degradação que seguem existindo volte a impor sua inércia corrosiva no percurso.

O que leva a um último, mas certamente não menos importante, item para a agenda. Processos duradouros de avanço público pressupõem instâncias eficazes de interlocução também compartilhadas. Como é natural, durante anos as áreas pobres do Rio viram também seus espaços associativos e sua interface com o poder público desgastarem-se na mesma medida do isolamento imposto pelas armas. Associações e grupos locais foram capturados ou fragilizados pelo tráfico ou por milícias, as oportunidades de colaboração com outros segmentos sociais foram limitadas pelas fronteiras criadas, a relação com o poder público deteriorou-se ainda mais em clientelismo - quando não em extorsão e intimidação determinadas pela presença cotidiana da face corrompida do Estado. Isso tampouco se desfaz da noite para o dia, e sem que seja desfeito será difícil contar com lastro suficiente para eliminar de vez o risco de nova inversão negativa da roda.

Recriar espaços vibrantes e qualificados de participação e cooperação será então componente igualmente decisivo para o que há por vir. Multiplicação de oportunidades de convívio diverso nas áreas em foco (via cultura, esporte, lazer, além de participação cidadã), associações e redes locais renovados, conselhos e novas formas criativas para a interação com o poder público e a colaboração com outros segmentos sociais, recuperação dos pontos de contato com os parlamentos (Câmara Municipal e Assembléia Legislativa) e inovação na ação dos meios de comunicação em relação a essas áreas (e vice-versa) são partes integrantes possíveis deste esforço. Elas e outras que venham a ser criadas no caminho. É daí, quem sabe, que pode vir a superação definitiva dos paternalismos, desconfianças e incompreensões que tradicionalmente comprometem as vias de identidade e encontros na cidade partida, e é por isso que o tópico tanto fecha quanto impulsiona a pauta.

Avançamos notavelmente nos últimos tempos do "quem precisa de polícia" para o "de que polícia precisamos". E para o entendimento de que todos precisamos de boa polícia - a mesma para todos. Não é pouco. Agora é tempo de alcançar o que precisamos além dela. É bem mais, certamente, mas o caminho está positivamente aberto, e são muitos os sinais de que pela primeira vez em muito tempo há boas razões para apostar nele.

15.4.10

resiliente demais


O conceito do momento em política urbana é o de "resiliência". Em tempos de aquecimento global e desastres naturais, já não basta ser sustentável, é preciso ser capaz de assimilar golpes e continuar funcionando a despeito de quaisquer eventos. Talvez não exista cidade mais naturalmente resiliente do que o Rio de Janeiro.

Nada abala o Rio: chuvas com centenas de mortes, carros-bomba em avenidas, tiroteios e execuções diversos, quedas de serviços básicos, águas poluídas, extorsões, corrupções e incivilidades cotidianas. Para todos os casos, a cidade conhece bem o ritual a cumprir: expressar indignação, identificar culpados, exigir reações, adaptar-se às novas restrições e seguir em frente. Treino de séculos (como o subdesenvolvimento de Nelson Rodrigues), passadas as nuvens aqui estamos a completar o ciclo mais uma vez.

Enquanto isso, a cidade se aproxima de celebrar uma década sem um plano diretor. Vai ficando sozinha, já que o Estatuto da Cidade previu em 2001 a obrigação legal para que todos os municípios brasileiros com mais de 20.000 habitantes tenham um plano, e desde então centenas de cidades do país se lançaram à tarefa. O plano existente do Rio data de 1992, apontando para 10 anos à frente, e deveria portanto ter sido renovado em 2002. A história impressiona: em 2001, a Secretaria Municipal de Urbanismo deu início ao que deveria ser a elaboração do novo plano. Os relatos do desenrolar a partir daí no âmbito da Prefeitura - nas páginas 8 e 9 deste relatório aqui - e da Câmara Municipal - tabela sintética aqui - poderiam ser lidos como peças de humor sobre a capacidade de burocracias públicas sem rumo produzirem vento - e relatórios de tempos em tempos. Agora, 9 anos, 3 mandatos municipais, 5 comissões especiais e 4 versões de projetos depois, a informação mais recente é que o novo plano "deverá ser votado no primeiro semestre". Mas o debate se atualiza entre a defesa de mais tempo para a elaboração de um plano qualificado e a preferência por aprovar logo a versão insatisfatória disponível, enquanto a presidência da Câmara de Vereadores celebra novo convênio com a Escola Nacional de Saúde Pública para, entre outras coisas, "colaborar na discussão do plano diretor". Notícias dos próximos capítulos, com fé em Deus, pelo site da Câmara (poderia também ser pelo twitter do Plano, mas este parou de ser atualizado em janeiro).

O contraste entre a perplexidade recorrente com os fatos do dia e a novela legislativa fala por si. Mas ainda assim não é fácil decidir se o mais impressionante é a própria novela, ou o fato dela ter podido transcorrer em todo esse período sem jamais chegar a despertar qualquer interesse público relevante.

Seja como for, vale a observação. Houvesse um plano - na forma de um plano diretor propriamente dito ou, mais modestamente, de políticas e metas governamentais explícitos - e seria o caso de avaliar as águas da semana passada à luz dos rumos previstos. Situá-las no contexto das regiões que deveriam expandir-se e das que não. Cotejá-las com as ocupações informais por urbanizar ou remover - em função do risco, de razões ambientais ou da possibilidade de oferta de condições melhores. Identificar opções nas áreas de interesse social destinadas à população de baixa renda. Conciliar as propostas com os programas de habitação, transportes e promoção de direitos correspondentes. Discutir ajustes com base nisso e nos mapas, dados e informações objetivas relacionados. Processá-los em foros de interlocução pública legitimados (Câmara Municipal, conselhos, redes associativas).

Não havendo - plano ou, mais modestamente ainda, pelo menos esses foros - fica mesmo difícil ir além da indignação difusa, do prende/não-prende, ocupa/não-ocupa, remove/não-remove de sempre, do jornalismo de imagens espetaculares e do teatro das respostas públicas simbólicas. Expostos todos os inconformismos, escritos todos os artigos, feitas todas as declarações, o que fica são 2 decretos - 1 municipal e 1 estadual - atualizando critérios e locais para a remoção de moradores instalados em áreas de risco (responsáveis maiores que são, na perspectiva dos 2 governos, por todo o ocorrido) e um compromisso vago da Prefeitura com a desobstrução tardia de ralos e galerias. Nada sobre as razões para a seleção desses locais ou dos destinos dos seus moradores, outras ações de longo curso ou a conexão disso tudo com o plano geral de desenvolvimento da cidade. Colocamos fita isolante, damos uma mão de tinta e vamos adiante.

Não faltarão, é claro, alguns textos como esse - além desse próprio - apontando o buraco e pedindo estratégia. Mas eles são parte do rito, também bem conhecida. A parte final, enquanto o Rio não for capaz de desnaturalizar tudo com que aprendeu a conviver e somar-se ao Brasil na absorção gradual dos bons hábitos do planejamento, da explicitação de rumos e da canalização de energias para a ação pública consequente. Fica, quem sabe, o desafio inicial de um pouco menos de resiliência.

4.4.10

páscoa


Do também recém-lançado (ou rebatizado) e também ótimo Maré de Notícias:

"O Movimento Moleque - movimento de mães pelos direitos dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no sistema Degase do Rio - continua a apoiar famílias que enfrentam essa questão. O grupo foi fundado por Mônica Cunha e Ruth Sales, quando ambas lutavam pelos direitos dos seus respectivos filhos em 2003. De lá pra cá, Mônica perdeu o filho com 20 anos, morto por policiais. O filho de Ruth, por sua vez, está casado e hoje trabalha numa empresa de informática. "Nosso objetivo é fazer com que os familiares tenham consciência do problema e entendam o que acontece com seus filhos", explica Mônica. O grupo está sem parceiro no momento. Quem quiser entrar em contato, deve ligar para 8142-5574 ou enviar e-mail: monicasuzana@yahoo.com.br."

Mais informações sobre o movimento aqui.

17.12.09

bolsa família


Marcus Vinícius Faustini, em "Guia Afetivo da Periferia":

"Só conheci leite tipo B por causa do governo Brizola. Antes dele era raro leite lá em casa. Um saco tipo C, geralmente da marca CCPL, tinha que durar a semana inteira, e, para isso, a maior parte do copo americano tinha que ser de café. A fiscalização de minha mãe e de meu padrasto era permanente. Misturar Claybom no café era minha saída para a situação. Ganhar o saquinho individual de leite diariamente na Escola Estadual Euclydes da Cunha fez o nome de Brizola circular no recreio mais do que o medo da professora de Educação Moral e Cívica."

27.11.09

trem bala


Fausto Fawcett, "Favelost":

"Piscinas de Palmolive incandescente borbulhante são habitadas por gigantescos caranguejos clonadaços, por assim dizer, caranguejos experimentais que serão muito úteis nos estudos do magma terrestre. Mingau do fundo da Terra. Caranguejos batscafos equipados com patas cheias de nano captação. Crianças usando máscaras rasgadas de jogadores das seleções brasileiras campeãs do mundo atiram latas de azeite nos caranguejos gigantes. E tome pivetinho Beline mandando azeite no Palmolive escaldante. E tome pivete Rivelino zoando o caranguejo batscafo. Essas piscinas de Palmolive incandescente habitadas por experimentos biológicos ficam situadas nas proximidades do Vale do Silêncio, uma mega pista de skate abandonada com seus vinte quilômetros quadrados de obstáculos e curvas. No Vale do Silêncio, surdos mudos trabalham firme em projetos de engenharia molecular (mudar as estruturas atômicas da matéria, fazer aço maleável, regeneração de metais para extinguir a famosa fadiga de material, etc...) dentro de uma abóboda que os protege das intempéries climáticas e sociais desse megaterritório de vida convulsiva conhecido como Favelost. Entre Rio e São Paulo a mais nova franquia social depois das revoluções inglesas, americanas e francesas, depois dos delírios de invenção de uma nova humanidade nazista ou socialista-soviética, depois de todos os absolutismos e anarquias, uma nova franquia de festa humana, de batalha por afirmação social, acontece na cidade Terra (não se usa mais a palavra planeta pra designar essa kichnete em que se transformou a terceira bola em torno do forno solar). São as favelosts. Apelido dado ao maior fenômeno urbano de todos os tempos, grandes aglomerações de habitação e ocupação confusa entre megacidades (superguetos de capitalismo exacerbado na cidade Terra). Entre Rio e São Paulo surgiu a primeira Favelost."

A profecia feita em 2007 pode parecer desatualizada nestes tempos de otimismo. Mas a antena esperta do nosso Fausto não se engana ao apontar para a concentração de eletricidade estática da via Dutra. Quem ganha a Avenida Brasil para deixar o Rio ou a Marginal Tietê para chegar a São Paulo, ou vice-versa, enxerga claro a imensidão da tarefa por cumprir. Inclusão, beleza, rigor, convivência, promessas cidadãs. Quem explora a vida urbana ao redor delas se deixa engolir pelas piscinas incandescentes borbulhantes de vitalidade e desalento. E tome garoto Ronaldinho hiperconectado estudando, criando e guerreando.

Seja como for, Favelost tem seu contraponto em M'bras. A "megalópole brasileira" adotada por André Urani e outras vozes cariocas como parte de visão estratégica para a expansão do desenvolvimento de uma área que abarcaria de Campos a Juiz de Fora a Campinas. 232 municípios, 42 milhões de habitantes, 0,97% do território brasileiro, 23% da população, 35% do PIB. Renda per capita 55% maior do que a média nacional, taxa de anafalbetismo 50% menor, 91% do fluxo de turistas estrangeiros no país, rede bem conhecida de indústrias, serviços e centros de conhecimento. Quem a defende como forma de olhar para o mapa enxerga nela a locomotiva articulada do novo Brasil global.

Diz Urani:

"Não faz muito sentido imaginar, no mundo globalizado, que o futuro da região metropolitana do Rio de Janeiro possa ser pensado de forma totalmente isolada daquele da de São Paulo (e vice-versa), nem muito menos reeditar rivalidades já anacrônicas. Em parte porque, em boa medida, a crise de ambas as regiões metropolitanas está relacionada a um processo de reestruturação produtiva que levou muitas empresas a abandonarem suas instalações nestas regiões em favor de novas localidades que se encontram justamente entre estas duas regiões metropolitanas. Ou seja: de alguma maneira, o mercado tem se encarregado sozinho de ir, aos poucos, conurbando o território entre as duas maiores cidades do país e até mesmo além, em direção a Campos, no Rio de Janeiro, a Campinas, em São Paulo e a Juiz de Fora, em Minas Gerais – conformando o que chamarei aqui de “Megalópole Brasileira”. Mas também porque, justamente, neste início do século XXI, o mundo parece estar se reorganizando em torno das megalópoles."

Uma visão de futuro, uma capitulação: não é casual que o entusiasmo com uma M'bras venha do Rio de Janeiro. Porque não está dito, mas está claro o lugar de São Paulo no centro desse novo espaço pretendido. São Paulo já é a cidade polo do Brasil dos BRICs e da sua nova afirmação no mundo. Já integra as listas informadas das próximas booming cities do mundo. Já cumpriu sua missão política e econômica de condução do país a este horizonte. Décadas depois já não há espaço para saudosismos ou disputas. O Rio precisa da bóia que o país lhe joga para levá-lo junto, e acena com um desenho que lhe permita acolhê-la de cabeça erguida.

Mas quem capitula tem também suas cartas na manga. Se isso tudo é verdade, é também fascinante que na hora de exibir ao mundo a expressão desse país renovado, é a cidade 40 graus, dos braços abertos sobre a Guanabara, das folhas secas caídas de uma mangueira, do tamborzão e de todas as misturas quem entra em cena. É o nome "Rio de Janeiro" que surge no sotaque espanholado do presidente do COI anunciando as primeiras Olimpíadas na América do Sul. É o Maracanã que voltará a receber uma final de Copa do Mundo. E é o Redentor quem decola na capa da The Economist. O grande barato do festejado vídeo de Fernando Meirelles para a apresentação do projeto olímpico carioca é a imagem de uma cidade (um país) que recebe a todos com alegria e graça. Feitas todas as voltas, o Rio de Janeiro continua sendo a síntese da identidade de um Brasil desejado e do que o mundo deseja dele.

Cigarra e formiga. Gato e cachorro. Omar e Yaqub, os "Dois Irmãos" de Milton Hatoum. Ciúmes ou convergências.

O fato é que na soma dos justos reconhecimentos o cenário está dado para uma boa divisão de lugares. E para encurtar distâncias também: São Paulo pode ser mais bela, o Rio pode ser mais sério. Ambas podem ser mais justas e por isso modernas. Mas a boa nova é que as duas já estão sendo, e mesmo sem perceber ou reconhecer caminham em inspirar-se mutuamente. Bons e estimulantes espelhos, seja em M'bras, seja em Favelost.

Segue Fawcett: "Enquanto se discutia, a partir de balbúrdias sindicalistas na França, o declínio do estado-de-bem-estar-social em eterna briga com o modelo anglo-saxônico de deixa-solto-o-mercado-não-atrapalha-muito estado-se-produz-se-tem-emprego-tem-competição então tá valendo. [...] Enquanto se discutia os problemas das vias liberais ou neoliberais, sociais-democratas ou os purgatórios dos estados falidos cambaleantes pelas Áfricas, Ásias, Américas Latinas, uma outra via aparecia - a via Dutra. Rio Paulo de Janeiro São. Favelost."

Segue Urani: "O que está em jogo, em última instância, não é apenas a retomada do desenvolvimento em bases mais sólidas que as atuais, mas o aprofundamento do processo que Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, chamou de “nossa revolução”. Um processo que, até então, se dava de forma lenta, sorrateira, quase imperceptível, mas segura e inexorável, aniquilando as bases de nossas raízes ibéricas, em prol de um estilo novo, que cismamos de chamar de americano. Ele estava se referindo à urbanização. [...] É neste sentido, de retomada e aprofundamento da “nossa revolução”, que a idéia da megalópole brasileira precisa ser compreendida e trabalhada. É um passo importante para o desenvolvimento e a inserção do Brasil na economia mundial. Ele está ao nosso alcance neste início do século XXI."

Dois bons profetas.


16.8.09

rio


A série "Democracia nas Favelas" publicada pelo Globo ao longo dessa semana é uma boa nova sobre uma boa nova.

A primeira novidade é a evidência nascente do Rio de Janeiro afinal assimilando o sentido de que é preciso fazer segurança pública e outras políticas para as favelas, e não contra elas. Ou para promover direitos e inclusão, e não por complacência paternalista. Parece trivial, mas sendo verdade é movimento que desloca o prisma local da casa grande/senzala para o da cidade contemporânea. Colônia de engenho para modernidade. Nostalgia aristrocrática para visão de futuro.

É animador ver a presença da polícia em favelas sendo formulada sob a ótica dos benefícios para seus moradores. Vê-los ganhando rostos como personagens possíveis da cidade: indo e vindo, formulando expectativas e histórias de vida, negociando aspirações e conflitos do convívio democrático. Circulação sem receio, reconquista do espaço público, o horário da festa e o volume do som, o mercado imobiliário, serviços públicos autorizados a instalar-se, ensaios de ausência de fronteiras e interação com o "asfalto". Cidade.

Já não era sem tempo. E a segunda boa nova é justamente que uma visão assim se revele no Globo. Não por qualquer ranço preconceituoso contra o jornal, mas pela sugestão da Zona Sul carioca compreendendo este movimento. Não é pequena nem assintomática a distância entre manchetes como "tiroteio no Cantagalo leva pânico a Ipanema", de 2005, e "cidadania lenta e gradual", que abre a série dessa semana. É verdade que ainda falta muito, as matrizes delimitadas pelas duas manchetes ainda se alternam na disputa de espaço (basta lembrar a expressão recente da compulsão pela remoção de favelas, restando saber quais favelas exatamente se quer remover), a visão ainda não vai além do que está ao seu alcance (Zonas Norte e Oeste continuam não existindo, estamos longe ainda de conversar sobre os mapas da exclusão, da educação, da saúde etc. da cidade inteira). Mas uma coisa de cada vez, e a de agora é não deixar escapar o que há de novo sob o Sol.

Porque é mais do que a foto do dia, é o imaginário da cidade. Do mesmo modo que em São Paulo a lei "Cidade Limpa" funcionou como ponto de inflexão no subconsciente de uma cidade que se sentia irremediavelmente feia e voraz, propagando o desejo e a crença nas possibilidades de refazê-la bela e habitável, no Rio, que jamais duvidou da própria beleza e urbanidade, a imagem de sucesso das "Unidades de Pacificação" que vai se delineando é clara candidata a cumprir o papel em relação ao sentimento de ilegalidade e fragmentação insuperáveis.

Não dá pra ver menos, porque não dá pra querer menos, depois de tanto tempo. Um passo em boa direção é apenas isso, alguém poderia e deveria dizer. Mas em termos públicos quando se vem de andar em círculos ou quando o movimento parece encaixar uma nova convergência de rumos, pode ser mais. Poder terminar a leitura com a percepção de que algo se move no Rio de Janeiro para além dos ciclos de perplexidade e resignação diante do declínio é certamente mais. Parecer possível somar a isso a intuição nas entrelinhas de um futuro desejável - confiante, diverso, voltado para adiante - compartilhado é nova que não pode deixar de ser saudada. Para quem compartilha do desejo, a série dessa semana pode ser bom antídoto para "Leite Derramado".

16.5.09

polca-lundu


Joaquim Manuel de Macedo:

"E o pior é que o gosto e a originalidade desses cantos, cuja música tinha um caráter que a fazia distinguir da música característica de todas as outras nações, têm-se ido perdendo pouco a pouco, sacrificada ao canto italiano, cuja imitação é, desde alguns anos, o pensamento dominante dos nossos compositores. As modinhas e os lundus brasileiros quase que já não existem senão na memória dos antigos; foram banidos dos salões elegantes e com todos os costumes primitivos, à semelhança das aves que, espantadas dos bosques vizinhos do litoral pelo ruído da conquista dos homens, fogem para as sombrias florestas do interior. Lá se acham proscritas, e felizmente ainda conservadas com a sua patriótica pureza no seio dos vales e no trono das montanhas, onde a população agrícola as asila em seus lares, vive com eles, alimentando a flama das recordações passadas que o estrangeirismo apagou nas cidades.

Para a música característica brasileira isso é uma verdadeira calamidade e a ópera nacional, recentemente criada, se quiser ser nacional, deve opor-se à continuação de tão grave erro, excitando os nossos novos e talentosos compositores a escreverem naquele gosto que, bem aproveitado pela arte, pode produzir obras originais e de incontestável merecimento."

 
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