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29.3.10

desrazão


Primeiro foi o frisson em torno do postulado do "Nudge" de Richard Thaler e Cass Sunstein, logo após a eclosão da crise econômica nos Estados Unidos e a posse de Barack Obama. O termo em inglês significa algo como "cutucar, empurrar delicadamente" e os dois professores da Universidade de Chicago apóiam-se nas observações da economia comportamental para propor a adoção pelo Estado de políticas que ajudem as pessoas a tomar as melhores decisões para si, levando em conta as nossas tendências à irracionalidade. Tornar automática a contratação pelas empresas de planos de previdência privada para os seus funcionários, reservando a eles a opção posterior de deixá-los ou de ajustar a sua contribuição, em lugar de deixar a cada um a iniciativa de buscar um plano para si. Informar aos compradores de novos carros a projeção dos custos com gasolina ao longo da vida útil do veículo. Incluir frutas nas merendas escolares para estimular hábitos saudáveis de alimentação. E assim por diante: prevenir pela ação do Estado os descuidos que a experiência indica que as pessoas tendem a fazer, sem chegar a colidir com o princípio da autonomia individual. Não por acaso os próprios autores definiram a doutrina como um "paternalismo liberal" e a ideia ganhou evidência nos EUA de Obama e da enxurrada de hipotecas e derivativos sem lastro.

O mesmo momento alimentou a onda de visibilidade para estudos destinados a revelar os múltiplos descaminhos pelos quais as decisões humanas afastam-se do pressuposto clássico da racionalidade. Jonah Lehrer e seu "How We Decide", propondo-se a explorar em bases neurológicas (isto é, incluindo aí o balanço disponível da observação empírica das formas pelas quais o cérebro trabalha enquanto tomamos decisões) os múltiplos fatores emocionais e instintivos que compartilham com a deliberação racional a responsabilidade por nossos atos. Neurobiólogos reunindo indícios da habilidade de parasitas de manipular o nosso comportamento, como no caso do toxoplasma, protozoário capaz de incidir sobre os circuitos neurais de seus portadores de modo a torná-los mais impulsivos, resultando por exemplo em riscos de envolvimento em acidentes automobilísticos 3 a 4 vezes maiores do que o normal (Robert Sapolsky explica a história inteira em excelente entrevista aqui). Malcolm Gladwell e seu "Blink", mapeando as situações cotidianas em que juízos são formados e escolhas feitas em um piscar de olhos, sem nada do processo de reunião de informações e análise de alternativas habitualmente associado à razão. Geneticistas usando com cada vez mais frequência a expressão "fomos programados para" de forma a expor comportamentos a que a herança genética nos condicionaria por default.

Agora é a vez da maré alcançar por aqui as decisões políticas. Em artigo na Folha semana passada, Hélio Schwartsman comenta os livros "The Political Brain" e "The Political Mind", lançados nos EUA respectivamente em 2007 e 2008. Como indica a semelhança dos títulos, ambos seguem o mesmo caminho de aplicar aos processos políticos e eleitorais o instrumental da neurociência empregado pelos estudos acima, para buscar demonstrar como também os juízos políticos são condicionados por emoções e estímulos inconscientes, gravados em nossas estruturas neuronais, em proporção muito maior do que gostaria o nosso ideal de livre arbítrio. Schwartsman vai tão longe quanto indagar se diante disso a ideia de democracia continuaria a fazer sentido (embora para concluir que sim).

A crença na razão humana decididamente já teve dias melhores. Não que ela esteja propriamente em xeque: todos os exemplos acima são, afinal de contas, esforços racionais para mapear e responder à ausência dela. Mas pelo andar da carruagem, nossa confiança na espécie - ou pelo menos no "homo economicus", craque em atuar com eficiência - não há de recuperar-se tão cedo. E tudo indica que neurociência e genética apenas começaram a mobilizar seu arsenal para nos convencer de que há muito mais conexões entre o indivíduo e suas atitudes do que sonhou a nossa vã filosofia (e mesmo a nossa não tão inocente psicologia).

27.8.09

igualdade / diversidade


Ryszard Kapuscinski, "The Other":

"Conquer, colonise, master, make dependent - this reaction to Others recurs constantly throughout the history of the world. The idea of equality with the Other only occurs to the human mind very late on, many thousands of years after man first left traces of his presence on Earth.

[...]

If the Enlightenment told us that the Other is a person equal to us, a member of the same family to which we belong, and if compared with the Enlightenment later anthropology took a step forwards, showing the European that the person from another race and tradition has his own, higly developed social and spiritual culture - then Emmanuel Lévinas took us further still, proclaiming praise for the superiority of the Other, and our duty to take responsibility for him."

Stephen M. Kosslyn, em "What Have You Changed Your Mind
About?":

"The notion is that a variety of factors in our environment, including our social envinronment, configure our brains. It's true for language and I bet it's true for politeness and a raft of other kinds of phenomena. The genes result in a profusion of connections among neurons, which provide a playing field for the world to select and configure so that we fit the environment in which we inhabit. The world comes into our head, configuring us. The brain and its environment are not as separate as they might appear.

This perspective leads me to wonder whether we can assume that the brains of people living in different cultures process information in precisely the same ways. Yes, people the world over have much in common - we are members of the same species, after all - but even small changes in wiring may lead us to use the common machinery in different ways. If so, then people from different cultures may have unique perspectives on common problems and be poised to make unique contributions toward solving such problems."

Veja, 26/08:

"A velocidade humana tem barreiras físicas bem conhecidas. A dificuldade está em adaptar a teoria a um atleta específico. Parte da facilidade com que Usain Bolt supera seus adversários se deve às origens étnicas. No passado, populações isoladas desenvolveram capacidades físicas específicas que ficaram impressas nos genes. Corredores com herança genética da África Oriental, como os etíopes e os quenianos, têm nos músculos grande quantidade de fibras de contração lenta, o que os torna vencedores naturais de maratonas. "Já os indivíduos com genes da África Ocidental, de onde provavelmente vieram os ascendentes do corredor jamaicano, têm mais fibras de contração rápida. São ótimos em provas de aceleração explosiva", disse a VEJA o antropólogo Daniel Lieberman, da Universidade de Harvard."

Genética e neurociência decidamente ainda vão dar muito pano pra manga neste nosso século.

 
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