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13.12.09

o homem na estrada


"Entre a Luz e a Sombra", em cartaz no Rio, São Paulo e outras cidades, é um filme instigante. A narrativa das histórias de Dexter e Afro-X, parceiros na dupla de rap 509-E surgida no não-saudoso presídio do Carandiru, em São Paulo, Sophia Bisilliat, atriz e protagonista do projeto "Talentos Aprisionados", que revelou a dupla, e Octávio de Barros Filho, então juiz-corregedor dos presídios paulistas, é feita por uma câmera segura, profundamente presente, inteiramente sóbria. Não é fácil para quem assiste decidir o que pensar sobre cada um dos personagens e situações em foco. O que é sempre um ponto de partida em favor da qualidade de um bom documentário.

Uma parte da trama é política, outra parte da trama é íntima. Na parte política, uma reflexão como poucas sobre as contradições das práticas penitenciárias, entendidas como a maneira da sociedade (ou "o sistema", como costumam invocar os rappers) lidar com os desviantes do crime. Diz a boa doutrina legal que a pena, resposta social ao delito, tem três objetivos: punição (o "pagamento das dívidas com a sociedade"), incapacitação (pela impossibilidade de presos cometerem novos crimes) e ressocialização (a criação de condições para uma vida em sociedade positiva após o cumprimento da pena). Este último seria, como sabemos, o objetivo final e mais importante.

Que no mundo real não é bem assim que as coisas acontecem é também bem conhecido de todos: ressocializar cumpre o papel coletivo das boas intenções declaradas, justificando em termos humanistas o desejo sincero de incapacitar (ou vigiar) e punir. O que o filme faz é nos levar um passo adiante nessa evidência: mesmo quando contra todas as probabilidades as condições para a ressocialização se criam, o sistema (ou a sociedade, se preferirmos) conspira para freá-las e subordiná-las à punição.

Quando surgiram para o mundo com o 509-E, Dexter e Afro-X estavam presos em regime fechado, ambos condenados por roubo, Dexter acusado também de um homicídio. Estávamos em 2000 e a dupla alcançou rápida notoriedade, desdobrando-se em shows pela periferia de São Paulo, lançando seu primeiro disco, ganhando prêmios de revelação do ano no rap brasileiro, chamando a atenção da mídia por sua história singular. Contava para isso com o apoio do juiz Octávio, que autorizava a saída de Dexter e Afro do presídio para as atividades do grupo. No filme, os dois festejam naquele momento a virada alcançada nas suas vidas, rompendo com o êxito musical as barreiras da marginalidade e vislumbrando uma profissão e um futuro promissores. No mundo real, não foi bem assim que as coisas aconteceram: o excesso de visibilidade e o ímpeto crítico de rappers os colocaram em choque com o deputado Conte Lopes, ex-policial militar e capitão da ROTA (e que também tem seu filme). O deputado acionou "o sistema" para lembrá-lo que os dois detentos, estando em regime fechado, não poderiam ser autorizados a deixar o presídio. E assim foi: as saídas foram proibidas, a projeção do grupo refluiu e as coisas voltaram ao seu curso habitual. Afro-X obteve mais tarde a liberdade condicional e tentou sem sucesso retomar a trajetória iniciada pelo 509-E. Dexter, com pena mais larga, segue detido, atualmente no presídio de Hortolândia, depois de vivenciar um périplo de transferências pelo Estado após a desativação do Carandiru.

O saldo pode ser resumido na imagem de Dexter na visita que Sophia e Luciana Burlamaqui, diretora do filme, lhe fazem em Hortolândia para a assinatura da autorização do uso de imagem dele no filme: o homem vibrante, carismático, impetuoso do 509-E dá lugar a um personagem abatido, algemado e resignado. Faz pensar no Mano Brown, não o do "Homem na Estrada" do título, mas o de "Tô Ouvindo Alguém me Chamar": "Ele tinha um certo dom pra comandar, tipo, linha de frente, em qualquer lugar. Condição de ocupar um cargo bom e tal, talvez em uma multinacional. É foda, pensando bem, que desperdício, aqui na área acontece muito disso, inteligência e personalidade, mofando atrás da porra de uma grade."

É verdade que o documentário não para por aí. Ao ouvir, por exemplo, o juiz Octávio afirmar que decidia contra a lei, que veda expressamente a saída de presos em regime fechado, optando pela precedência do objetivo da ressocialização, é inevitável para o espectador indagar-se sobre a correção disso. Em termos legais, Dexter e Afro-X não teriam de fato uma dívida ainda por saldar? Seria justo que eles, por terem talento e visibilidade, ganhassem o benefício, enquanto outros talvez com igual disposição para uma nova vida honesta, mas sem a mesma verve, não teriam a mesma oportunidade? Como adequar o sistema para fazer valer o tempo da ressocialização, psicológico, individual, sobre o da punição, pré-determinado e impessoal? Qual o balanço justo entre eles e como aplicá-lo corretamente em cada caso? Em tempos de propostas de revisão dos regimes de progressão penal, visando evitar a saída precoce das prisões de líderes do crime organizado, somar a história do 509-E à balança pode fazer um bem imenso ao debate.

A trama íntima não é menos interessante. As histórias contadas de Afro, Sophia e Octávio contêm no fundo a mesma trajetória de impulso vital e desilusão que é condensada em Dexter. Generosidade, violência, afeto, soberba, desprendimento, curiosidade, ingenuidade e fraquezas humanas surgem entrelaçados em todos os momentos, como se para reforçar ainda mais as dificuldades das categorias de bondade e maldade, culpa e inocência, que deveriam guiar as respostas ideais às dúvidas acima. A narrativa simples, sem mais truques do que o olhar atento sobre as vidas em cena, traça um retrato sensível da beleza e da crueza possíveis no caldeirão cotidiano de São Paulo e de suas quebradas ("luzes e sombras", para usar a expressão do juiz Octávio que batiza o filme). A ponto de o próprio Carandiru, desativado e implodido, poder ser também ele objeto de saudosismo: na gravação por um Afro-X libertado de um clipe simulando uma rebelião no presídio, na visita melancólica de Sophia às ruínas de um local ao qual dedicou 20 anos de sua vida. Ruínas que parecem naqueles contextos guardar paradoxalmente os melhores momentos dos personagens em foco.

Visto assim, o filme surge como um bom candidato a epílogo do ciclo dedicado à violência e à marginalidade urbanas que marca a nossa produção cinematográfica e musical recente, e que vem sendo decretado esgotado. Tem sua dose de sugestão saber que seu lançamento acontece em São Paulo com o Mano Brown de "Diário de um Detento" ("cadeia, guarda o que o sistema não quis, esconde o que a novela não diz") surgindo na coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo com uma camiseta da Nike, com que acaba de fechar contrato. "Não posso ser refém de nada. Nem do rap. Aquele Mano Brown virou sistema viciado.", diz ele.

Como no filme, não é o caso de julgá-lo, é claro. Até porque essa já é outra história. A nossa se conta pelos tempos de sucesso e frustração sublimados em Sophia buscando esperança na atuação com crianças e jovens da periferia de São Paulo, Octávio diluindo a perda da fé na justiça na espera resignada pela aposentadoria, Afro-X dando continuidade à carreira artística distante do crime, e Dexter sufocando o lamento da década perdida com a expectativa de poder também retomar a trajetória quando a dívida com o sistema enfim estiver paga. Vidas documentadas, no final das contas.

27.11.09

trem bala


Fausto Fawcett, "Favelost":

"Piscinas de Palmolive incandescente borbulhante são habitadas por gigantescos caranguejos clonadaços, por assim dizer, caranguejos experimentais que serão muito úteis nos estudos do magma terrestre. Mingau do fundo da Terra. Caranguejos batscafos equipados com patas cheias de nano captação. Crianças usando máscaras rasgadas de jogadores das seleções brasileiras campeãs do mundo atiram latas de azeite nos caranguejos gigantes. E tome pivetinho Beline mandando azeite no Palmolive escaldante. E tome pivete Rivelino zoando o caranguejo batscafo. Essas piscinas de Palmolive incandescente habitadas por experimentos biológicos ficam situadas nas proximidades do Vale do Silêncio, uma mega pista de skate abandonada com seus vinte quilômetros quadrados de obstáculos e curvas. No Vale do Silêncio, surdos mudos trabalham firme em projetos de engenharia molecular (mudar as estruturas atômicas da matéria, fazer aço maleável, regeneração de metais para extinguir a famosa fadiga de material, etc...) dentro de uma abóboda que os protege das intempéries climáticas e sociais desse megaterritório de vida convulsiva conhecido como Favelost. Entre Rio e São Paulo a mais nova franquia social depois das revoluções inglesas, americanas e francesas, depois dos delírios de invenção de uma nova humanidade nazista ou socialista-soviética, depois de todos os absolutismos e anarquias, uma nova franquia de festa humana, de batalha por afirmação social, acontece na cidade Terra (não se usa mais a palavra planeta pra designar essa kichnete em que se transformou a terceira bola em torno do forno solar). São as favelosts. Apelido dado ao maior fenômeno urbano de todos os tempos, grandes aglomerações de habitação e ocupação confusa entre megacidades (superguetos de capitalismo exacerbado na cidade Terra). Entre Rio e São Paulo surgiu a primeira Favelost."

A profecia feita em 2007 pode parecer desatualizada nestes tempos de otimismo. Mas a antena esperta do nosso Fausto não se engana ao apontar para a concentração de eletricidade estática da via Dutra. Quem ganha a Avenida Brasil para deixar o Rio ou a Marginal Tietê para chegar a São Paulo, ou vice-versa, enxerga claro a imensidão da tarefa por cumprir. Inclusão, beleza, rigor, convivência, promessas cidadãs. Quem explora a vida urbana ao redor delas se deixa engolir pelas piscinas incandescentes borbulhantes de vitalidade e desalento. E tome garoto Ronaldinho hiperconectado estudando, criando e guerreando.

Seja como for, Favelost tem seu contraponto em M'bras. A "megalópole brasileira" adotada por André Urani e outras vozes cariocas como parte de visão estratégica para a expansão do desenvolvimento de uma área que abarcaria de Campos a Juiz de Fora a Campinas. 232 municípios, 42 milhões de habitantes, 0,97% do território brasileiro, 23% da população, 35% do PIB. Renda per capita 55% maior do que a média nacional, taxa de anafalbetismo 50% menor, 91% do fluxo de turistas estrangeiros no país, rede bem conhecida de indústrias, serviços e centros de conhecimento. Quem a defende como forma de olhar para o mapa enxerga nela a locomotiva articulada do novo Brasil global.

Diz Urani:

"Não faz muito sentido imaginar, no mundo globalizado, que o futuro da região metropolitana do Rio de Janeiro possa ser pensado de forma totalmente isolada daquele da de São Paulo (e vice-versa), nem muito menos reeditar rivalidades já anacrônicas. Em parte porque, em boa medida, a crise de ambas as regiões metropolitanas está relacionada a um processo de reestruturação produtiva que levou muitas empresas a abandonarem suas instalações nestas regiões em favor de novas localidades que se encontram justamente entre estas duas regiões metropolitanas. Ou seja: de alguma maneira, o mercado tem se encarregado sozinho de ir, aos poucos, conurbando o território entre as duas maiores cidades do país e até mesmo além, em direção a Campos, no Rio de Janeiro, a Campinas, em São Paulo e a Juiz de Fora, em Minas Gerais – conformando o que chamarei aqui de “Megalópole Brasileira”. Mas também porque, justamente, neste início do século XXI, o mundo parece estar se reorganizando em torno das megalópoles."

Uma visão de futuro, uma capitulação: não é casual que o entusiasmo com uma M'bras venha do Rio de Janeiro. Porque não está dito, mas está claro o lugar de São Paulo no centro desse novo espaço pretendido. São Paulo já é a cidade polo do Brasil dos BRICs e da sua nova afirmação no mundo. Já integra as listas informadas das próximas booming cities do mundo. Já cumpriu sua missão política e econômica de condução do país a este horizonte. Décadas depois já não há espaço para saudosismos ou disputas. O Rio precisa da bóia que o país lhe joga para levá-lo junto, e acena com um desenho que lhe permita acolhê-la de cabeça erguida.

Mas quem capitula tem também suas cartas na manga. Se isso tudo é verdade, é também fascinante que na hora de exibir ao mundo a expressão desse país renovado, é a cidade 40 graus, dos braços abertos sobre a Guanabara, das folhas secas caídas de uma mangueira, do tamborzão e de todas as misturas quem entra em cena. É o nome "Rio de Janeiro" que surge no sotaque espanholado do presidente do COI anunciando as primeiras Olimpíadas na América do Sul. É o Maracanã que voltará a receber uma final de Copa do Mundo. E é o Redentor quem decola na capa da The Economist. O grande barato do festejado vídeo de Fernando Meirelles para a apresentação do projeto olímpico carioca é a imagem de uma cidade (um país) que recebe a todos com alegria e graça. Feitas todas as voltas, o Rio de Janeiro continua sendo a síntese da identidade de um Brasil desejado e do que o mundo deseja dele.

Cigarra e formiga. Gato e cachorro. Omar e Yaqub, os "Dois Irmãos" de Milton Hatoum. Ciúmes ou convergências.

O fato é que na soma dos justos reconhecimentos o cenário está dado para uma boa divisão de lugares. E para encurtar distâncias também: São Paulo pode ser mais bela, o Rio pode ser mais sério. Ambas podem ser mais justas e por isso modernas. Mas a boa nova é que as duas já estão sendo, e mesmo sem perceber ou reconhecer caminham em inspirar-se mutuamente. Bons e estimulantes espelhos, seja em M'bras, seja em Favelost.

Segue Fawcett: "Enquanto se discutia, a partir de balbúrdias sindicalistas na França, o declínio do estado-de-bem-estar-social em eterna briga com o modelo anglo-saxônico de deixa-solto-o-mercado-não-atrapalha-muito estado-se-produz-se-tem-emprego-tem-competição então tá valendo. [...] Enquanto se discutia os problemas das vias liberais ou neoliberais, sociais-democratas ou os purgatórios dos estados falidos cambaleantes pelas Áfricas, Ásias, Américas Latinas, uma outra via aparecia - a via Dutra. Rio Paulo de Janeiro São. Favelost."

Segue Urani: "O que está em jogo, em última instância, não é apenas a retomada do desenvolvimento em bases mais sólidas que as atuais, mas o aprofundamento do processo que Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, chamou de “nossa revolução”. Um processo que, até então, se dava de forma lenta, sorrateira, quase imperceptível, mas segura e inexorável, aniquilando as bases de nossas raízes ibéricas, em prol de um estilo novo, que cismamos de chamar de americano. Ele estava se referindo à urbanização. [...] É neste sentido, de retomada e aprofundamento da “nossa revolução”, que a idéia da megalópole brasileira precisa ser compreendida e trabalhada. É um passo importante para o desenvolvimento e a inserção do Brasil na economia mundial. Ele está ao nosso alcance neste início do século XXI."

Dois bons profetas.


6.5.09

são paulo


Um amigo carioca chega eufórico de fim-de-semana em SP. Virada Cultural. Os serviços, a educação das pessoas, a gentileza. Não quer mais o estado permanente de alerta do Rio. Não quer mais ser malandro.

Caetano dá seu testemunho sobre o assunto.

Sim, o bom carioca traído pelo espelho no alto da serra não se engana: São Paulo não é malandra, é terra de gente ordeira e trabalhadora, e é gentil. Caipira mesmo, disciplinada no cultivo, simples no trato cotidiano, afetuosa na receptividade, quase ingênua no fascínio das descobertas do mundo. Deslumbrante e deslumbrada, a maior cidade do interior de São Paulo.

Mas São Paulo foi sempre a cidade do trabalho, dinheiro e debandada no feriado. Nenhum convívio na rua. Nenhum compromisso com a beleza, nem mesmo com a riqueza pública. Vida privada e selva de pedra. Terra de Jânio, Ademar e Maluf, lançando viadutos sobre a intelectualidade transviada. Convencida do vigor ou das oportunidades que pudessem haver nisso.

"A cidade de São Paulo na América do Sul não era um livro que tinha cara de bichos esquisitos e animais de história.
Apenas nas noites dos verões dos serões de grilos armavam campo aviatório com os berros do invencível São Bento as baratas torvas da sala de jantar."

Muito bem: é isso que está mudando. Museu da Língua, Cidade Limpa, Augusta, Racionais, jovens cantoras discretas e elegantes, sim. E também praças com skate e ginástica, livrarias com bancos e poltronas, CEUs e saraus, novas calçadas. "Nossa São Paulo", muito mais importante pelo nossa do que pelo São Paulo, e pela imensa quantidade de pessoas e movimento que há aí.

A cidade já não se apraz em ser selva, quer ser cidade. É sintomático demais que a Lei Cidade Limpa muito mais do que funcionado, tenha permanecido 3 anos depois como citação primeira de bom governo na fala de virtualmente qualquer paulistano. E não é coincidência que o último debate eleitoral sobre a cidade tenha presenciado os líderes Kassab e Marta disputando a primazia na criação de escolas e postos de saúde na periferia, no número de novos parques inaugurados e no transporte público, enquanto Soninha sustentava que tudo isso era pouco e falava em ciclovias, e Maluf falava sozinho que tudo era secundário e que o importante mesmo era abrir novas vias para fazer os carros circularem e a cidade não parar. Não foi apenas Maluf que ficou sujo, aquele discurso é que ficou velho.

E assim a terra dos imigrantes desterrados vai se tornando a cidade dos paulistanos.

Que isso se dê simultaneamente à confirmação da visão rejuvenescedora de sua melhor elite no final dos anos 90 de conversão dela em cidade global pós-industrial e à sua afirmação como ponta-de-lança de um novo Brasil aprimorado e emergente é uma conjunção feliz, que faz jus à trajetória. Ronaldo é da Fiel.

 
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